Artigo: Venha a nós e ao vosso reino, nada

Quando criança, igual a maior parte delas, eu tinha arroubos de egoísmo e não aceitava dividir os brinquedos com meu irmão. Então a juíza da casa, Dona Nega, vinha intervir no conflito e ao final de uma exposição de motivos sobre a necessidade de compartilhar os objetos dizia: “Vocês tem que aprender a dividir os brinquedos, não venham com essa história de “Venha a nós e ao vosso reino, nada””.

Só depois é que fui assimilar o significado desse adágio popular, que diz respeito as pessoas egoístas que são incapazes de compartilhar.

Sob essa lógica, do egoísmo, funciona o capitalismo liberal, onde o mercado suga, igual a um buraco negro, todas as riquezas produzidas pelos trabalhadores, relegando algum arremedo de divisão de capital somente nos períodos de crescimento econômico. Só que, uma das molas propulsora do capitalismo é a crise, que é criada pela própria natureza do sistema. Porém, quando acontece uma crise econômica, quem paga o ônus, não é quem gerou a crise, é a população. Não é quem pariu Mateus, que vai o embalar.

A partir disso, em nome de um pseudo equilíbrio econômico-financeiro, os operadores do capitalismo liberal vão obrigando os governos nacionais a fazerem reformas trabalhistas, econômicas, tributárias e administrativas; de forma que o trabalhador é esmagado com a perda gradativa de direitos enquanto os bancos, bolsa de valores e demais atores especulativos aumentam os seus rendimentos na mesma medida em que a população empobrece.

Quando os governos são de origem popular e estes assumem algum compromisso com a classe que os elegeram, põem algum freio na fome voraz do capital. No entanto, quando os governos são eleitos para defender os interesses do mercado, a exemplo do que aconteceu na última eleição no Brasil, as amarras das políticas sociais são desfeitas e a população fica à mercê da fera esfomeada do neoliberalismo.

Estamos verificamos, nas últimas semanas, a explosão de revoltas populares violentas em diversos países, em que o modelo de estado e economia neoliberal ultrapassou o ponto máximo de tolerância. No Equador, o ponto de ebulição foi o aumento do preço dos combustíveis, com o fim dos subsídios que o governo concedia. Providência esta, exigida pelo Fundo Monetário Internacional, o famigerado FMI. No Líbano, o estopim foi o aumento abusivo dos impostos, implementado pelo governo, em que queria taxar até o envio de mensagens do aplicativo WhatsApp. No Chile, que é um espelho do que vai acontecer no Brasil, a gota d’água foi o aumento das passagens no transporte público, que na verdade foi somente o pretexto para que a população expressasse sua imensa insatisfação com o sistema previdenciário reformado, nova legislação trabalhista e privatização de quase todos os serviços públicos.

No Chile, depois da reforma previdenciária, que é bem semelhante a que vai ser aprovada aqui no Brasil, as pessoas quando estão se aposentando, recebem um salário tão miserável que um número assustador de idosos tem cometido suicídio ante a impossibilidade de ter uma vida digna. Lá, foi quase tudo privatizado: educação, saúde e diversos outros serviços. Estes serviços, com regulamentação frouxa do Estado, ficaram por conta dos grupos empresariais e logo ficaram acessíveis somente a uma pequena parcela da população. Até a água, o bem mais vital do ser humano, virou mercadoria, em que os pobres precisam optar se lavam a roupa ou tomam banho, pois não podem pagar pela água o suficiente para suprir todas as necessidades básicas.

O egoísmo voraz do sistema liberal, em que o estado deixa de ser protagonista dos serviços públicos essenciais para ser um regulador do interesse dos grupos dominantes, desestrutura a sociedade de tal forma, que os conflitos sociais explodem do “nada”. Até há alguns dias o Chile vivia uma “paz” inquestionável. Hoje está um caos.

A lei do neoliberalismo é: Deus por todos e cada um por si. Essa forma de estado e de sociedade é nociva e destrutiva da dignidade humana. E num país, como o Brasil, em que grande parte da elite econômica sente saudade do período da escravidão, deixar que o mercado se auto regule vai nos levar a certeza da convulsão social, a exemplo do que está acontecendo em diversos outros países do mundo.

Laudo Esdras Pereira Batista

Professor

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