Pesquisa aponta que clima de perseguição tem levado professores universitários a buscar o exterior

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e publicado este mês pelo Instituto GPPI (Global Public Policy Institute), aponta que a liberdade para pensar, aprender, ensinar e pesquisar no Brasil corre sério risco. Os motivos são os mais variados: cortes e congelamento no orçamento das universidades, censura a debates, discurso de ódio e falsas declarações sobre a comunidade acadêmica. A estratégia, segundo os pesquisadores, é uma tentativa do Governo Federal de ter controle sobre as universidades.

De 2017 pra cá, outra instituição, a Scholars At Risk, já recebeu 48 pedidos de apoio de professores universitários brasileiros. A organização, sediada nos Estados Unidos, é formada por uma rede internacional de 530 instituições acadêmicas em 42 países, com o objetivo de oferecer suporte aos professores e defender a liberdade acadêmica. Por meio dela, pesquisadores e professores conseguem trabalhar no exterior através de um sistema de parcerias durante um certo período. Para se ter uma noção do acirramento dos ânimos no Brasil, desde que foi criada em 1999, a organização tinha recebido 52 pedidos de ajuda de brasileiros, dentre esses, 48 foram feitos depois da última campanha presidencial.

Além de assegurado pela Constituição, o livre exercício da docência também está protegido pelas normas internas das instituições. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por exemplo, criou em 2018 regras que garantem liberdade para que professores, estudantes e servidores exerçam suas funções. Mesmo assim, este ano a Ouvidoria da UFRN registrou uma manifestação envolvendo agressão verbal e física de uma docente por motivos políticos. Um processo interno de sindicância foi instaurado para apurar o caso.

A menos que se tenha crescido em um lar muito bem estruturado, financeira e intelectualmente (o que não corresponde à realidade da maioria da população brasileira), é na escola ou faculdade que teremos contato com os pensamentos mais diversos já elaborados pela engenhosidade humana. É lendo As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que descobrimos que a prata levada do México e Bolívia para a Espanha durante 150 anos de exploração, excedia em três vezes o total das reservas europeias. O que explica, em parte, como alguns países se tornaram ricos e outros subdesenvolvidos. Já Simone de Beauvoir, no livro O Segundo Sexo, mostrou as raízes da desigualdade de gênero quando, em 1949, observou que as burguesas eram solidárias aos burgueses e não às mulheres proletárias, assim como as brancas o eram aos homens brancos e não às mulheres negras. Pensar de maneira independente incomoda muita gente e, talvez por isso, até quem não é professor reconheça que o livre exercício da profissão vem sendo ameaçado.

Não é de hoje que as universidades vêm sofrendo tentativas de interferência na liberdade de cátedra. O exemplo mais claro foi o ‘Escola sem Partido’ que acabou sendo absorvido pelo governo federal e pelo MEC. Eles usam formas sutis, como quando tentam convencer os professores a ‘não se posicionarem politicamente porque são servidores públicos’, até formas mais diretas como o sucateamento das universidades e institutos federais. O sucateamento é a face mais perversa dessa interferência, mas é bom lembrar que o ‘Future-se’ ainda perambula pelos corredores do governo e todos sabem o que ele significa: privatização explícita das universidades” alerta Wellington Duarte, Presidente do sindicato dos docentes da UFRN (Adurn).

Em 2021, as universidades públicas federais terão cortes de R$1,882 bilhão, de acordo com a Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais do Ensino Superior), o que compromete a qualidade do ensino e a expansão das universidades.

“A diminuição de recursos para as universidades ao longo dos anos afeta a educação superior em relação à qualidade do ensino e impedem que as instituições atinjam as metas do Plano Nacional de Educação (PNE). A redução da verba de investimentos, que é utilizada para aquisição de equipamentos e para obras, também deixa as universidades impossibilitadas de adquirir novos equipamentos e de ampliar ou construir infraestruturas necessárias”, avalia a atual gestão da UFRN.

Fonte: Saiba Mais

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