Currais Novos é citado em documentário sobre ditadura militar

Dermi Azevedo não tem rancor, tem memória. Diz isso com a voz entrecortada pela Doença de Parkinson, mas também pela emoção de ter sua vivência de tortura contada em um filme que concorre a melhor curta-metragem no 48º Festival de Cinema de Gramado.

Dirigido por Lucas H. Rossi dos Santos e Henrique Amud, “Atordoado, Eu Permaneço Atento” traça um perfil da militância desse jornalista e cientista político levado ao DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em 14 de janeiro de 1974, depois de agentes encontrarem em sua casa no bairro do Campo Belo, em São Paulo, o livro “Educação Moral e Cívica e Escalada Fascista no Brasil”, coordenado pela educadora Maria Nilde Mascellani e com a digital intelectual de Dermi e da esposa, Darcy.

A obra trazia uma análise da Educação Moral e Cívica (EMC) como disciplina imposta pelo regime militar em todos os currículos escolares do país. Os militares teriam ficado particularmente irritados com a informação de que o estudo fora enviado ao Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Genebra, na Suíça, para ser divulgado mundialmente.

Infância roubada

Era a segunda detenção de Dermi. A primeira ocorreu em 1968, no Congresso da União Nacional de Estudantes (UNE), em Ibiúna, quando era líder estudantil. Além das agressões na própria carne, o que o dilacerou e dilacera é a violência com o que os agentes da repressão trataram seu primogênito, Carlos Alexandre Azevedo — o Cacá — na segunda prisão. A mãe de Cacá, a pedagoga Darcy Andozia, também tinha sido encarcerada, e o bebê de apenas 1 ano e 8 meses havia ficado em casa com a babá. Porque chorava de fome, a criança recebeu um soco na boca. Com os lábios sangrando, também foi “conduzida” ao DEOPS, onde teria levado choques elétricos, segundo relato de outros presos.

Ao ser entregue aos avós maternos em São Bernardo do Campo, Cacá foi jogado ao chão. “Tudo isso o marcou profundamente”, diz Dermi. O filho desenvolveu fobia social. Em 2013, aos 40 anos, suicidou-se com uma overdose de medicamentos.

O filme, elaborado numa linguagem metafórica, com cenas de conflito entre policiais e manifestantes, céus avermelhados e cogumelos atômicos, não entra nesses detalhes e traz uma ou outra foto de família. Entre elas, uma imagem pueril de Cacá aos 5 anos, com os pés mergulhados num açude em Currais Novos, no sertão do Rio Grande do Norte — cidade de criação de Dermi e para onde a família se mudou depois da prisão. Dali, foram para Natal. Na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Dermi se formou em jornalismo. Só retornaram a São Paulo em 1984.

O casal teve outros três filhos: Daniel, Estevão e Joana. Dermi e Darcy se separaram — entre outros motivos, diz Lucas, por desavenças quanto à divulgação do acontecido com a criança. Darcy queria preservar Cacá ao máximo, Dermi entendia que era preciso denunciar a crueldade. “A tortura é um crime contra a humanidade que não pode ficar escondido”, diz.

Ele casou novamente em 2011 com a pedagoga Elis Regina Brito Almeida, que agregou o sobrenome Azevedo. É cofundador do Núcleo Maximiliano Kobe, voltado à defesa dos direitos humanos e da justiça social e, nessa toada, em 2018, lançou o livro “Nenhum Direito a Menos” com o subtítulo “Direitos Humanos – Teoria e Prática”. Cinco anos antes, havia gerado “Travessias Torturadas”, um registro autobiográfico e político do período entre 1964/1985.

“A ditadura afetou e afeta até hoje minha família, meu pai tem delírios de que vêm sequestrá-lo novamente”, afirma Estevão Azevedo, autor de contos e romances que se prepara para lançar seus primeiros livros infantis. “É imprescindível resgatar essas histórias, afinal, as práticas e os pensamentos que conduziram à tragédia da ditadura civil-militar ainda estão muito vivos”, completa.

É esse o principal mote de Dermi e dos diretores de “Atordoado”: alertar para a normalização da tortura e para o clima de ódio que paira na atmosfera brasileira. Lucas afirma que a ideia do filme surgiu logo depois da eleição de Jair Bolsonaro. “Temos um presidente que defende a ditadura, que levanta a bandeira do Ustra (coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra). Eu queria falar sobre esse desgoverno, e a história do Dermi estabelecia um paralelo entre os anos de chumbo e os tempos atuais.”.

Uol/Bol

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