O clima político no Brasil ainda não é dos melhores. Apesar do discurso de pacificação do país adotado pelo presidente Lula, os fantasmas da desordem insistem em ocupar as ruas. Depois de alguns anos com a nação atolada nas trevas de um governo fascista e negacionista, pacificar politicamente o país parece não ser uma tarefa das mais fáceis; o vírus golpista que se instalou nas bases da república brasileira disseminado por traidores da pátria continua ativo e agressivo.
Após várias escaramuças do ex-presidente Bolsonaro, ficando explícito que seu objetivo final seria dá um golpe de Estado para se perpetuar no poder, os episódios do 8 de janeiro de 2023, dias após a posse de Lula no Planalto, deveria, conforme comprovado em documentos e reuniões gravadas e incontestáveis, ter sido o ponto culminante de um plano tramado com a participação direta de setores do Alto Comando das Forças Armadas, ministros de Estado, empresários e religiosos, contaminados pela ideia doentia de purificar a nação em nome de “Deus, Pátria e Família”, onde decidiram que o ideal seria romper com a norma constitucional, sepultando, com isso, a democracia e o Estado Democrático de Direito no Brasil.
A reação imediata das instituições como o STF e a baixa adesão da população ao golpe foram atitudes que pôs um freio institucional na baderna orquestrada, porém, o ideário golpista espera uma oportunidade oferecida por algum deslize do governo Lula para alimentar a pauta de ódio do bolsonarismo a qualquer custo, consequentemente, é preciso também observar, para estes fins, os interesses do mercado financeiro, os da elite dona do poder e a cretinice do Congresso Nacional, hoje, comandados na Câmara e no Senado, pelo que há de pior na política nacional. Como em 2016, o roteiro todos conhecem.
A derrota de Bolsonaro nas urnas não significa que parte da população, empresários especuladores do mercado, setores da imprensa, militares e o neopentecostalismo fundamentalista estão dispostos a colaborar ou que aceitam de bom grado a volta de Lula à Presidência da República. Temos diante desse cenário de conflitos, argumentos que buscam justificar medidas golpistas e violentas. O mais recente pedido de impeachment contra Lula pela extrema direita é um balão de ensaio para este fim; dependendo dos interesses inconfessáveis do presidente da Câmara, Artur Lira (bolsonarista confesso), a quem cabe o poder de pautar pedidos como este, tramas dessa natureza poderão vir a ter desavergonhados acolhimentos.
Por causa dos seus planos golpistas e outros crimes, muitos esperam que Bolsonaro e seus milicianos sejam julgados e condenados no âmbito da lei, e, se couber, sejam presos, por terem atentado contra a normalidade constitucional, mas isso não quer dizer que o próprio Bolsonaro vá aceitar as regras do jogo dentro das linhas da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do Código Penal, tudo vai depender de como algumas de suas atitudes vão ser acolhidas entre seus apoiadores e nos setores mais reacionários da casta burguesa brasileira; uma de suas estratégias é atacar o governo e tentar criminaliza-lo com acusações domésticas em nome da moral e dos “bons” costumes. Outra questão é como o “gado” vai assimilar o seu discurso de perseguido, ou seja, o capitão degenerado, no auge do seu desespero, temendo covardemente ser preso, vai para o tudo ou nada, buscará desmoralizar as instituições, principalmente o STF, questionará as investigações da PF, resistirá politicamente a uma possível condenação e continuará insuflando ódio entre seus seguidores para se manter em evidência, livre e impune, (talvez, anistiado).No Brasil tudo é possível, depende da dimensão de possíveis acordos.
Diante esse cenário de filme trash de terror, precaução e prudência nunca é demais, e isso serve para o presidente Lula, o governo e setores das esquerdas que pelo o que parece, não aprenderam quase nada com a história recente, quando desde 2013 os cupins da extrema direita começaram a corroer as colunas da nossa democracia política. Inclusive, é oportuno perguntar: Por onde anda esta esquerda que não consegue, sequer, fazer a defesa do próprio governo, menos ainda, dialogar com as massas desprovidas de uma orientação política lúcida da realidade?
Enquanto a extrema direita continua pautando as ruas, convocando manifestações pró-golpe e envenenando as redes sociais com fake news, as esquerdas se mantêm acuadas, acreditando que tudo se resolverá com alianças e acordos duvidosos, e, na hora do confronto, é só chamar Xandão que ele resolve. Puro sectarismo.
O divórcio das esquerdas com suas bases sociais e sindicais, sem pautas nas ruas, além de uma comunicação enlatada da gestão petista, faz do governo Lula refém dos ataques constantes do bolsonarismo sedento pela desestabilidade do país. Enquanto isso, os brasileiros seguem confusos, sem enxergar a real gravidade dos conflitos que estão na ordem do dia, tanto quanto, sem entender que fora do enfrentamento político e da resistência popular, não há solução para a democracia, nem para a paz social.
Por Antônio Neves
Professor e Historiador

