Antônio Neves – professor e historiador
Notícias dão conta de que o Rio Grande do Norte receberá recursos para restaurar o Castelo de Engady em Caicó e fazer dele um Centro de Referência para a interiorização do turismo (sic). Os recursos são oriundos do Novo PAC do Governo Federal, no valor de 10 milhões de reais que visam fortalecer a cultura do estado. (Já nem lembro quantas vezes ouvi isso!).
Semana passada escrevi aqui nesta coluna reflexões sobre a forma de como as artes e os artistas são tratados, principalmente aqui em Caicó, onde explícita falta de políticas públicas para estas áreas, além dos pacos recursos estruturais e financeiros mal direcionados, sem planejamento nem propósitos definidos, fazem da nossa cultura local um ambiente pouco valorizado. O Castelo de Engady se encaixa nesse ambiente como uma expressão material do descaso e da desvalorização das coisas da gente.
Construído em 1974 a partir de um projeto pessoal de um padre para ser sua casa de campo, quando o lugar onde está erguido ainda era parte da zona rural do município, o monumento medieval em forma de castelo está virando poeira sob os escombros que escondem a falta de zelo e a indiferença com aquilo que deveria estar funcionando para o acolhimento das nossas artes. Hoje, pertencendo ao Governo do Estado, adquirido em 2006 sem nenhum propósito claro que justificasse esta aquisição, o Castelo logo perdeu sua função histórica, social e cultural, virou um espaço de ninguém e viu a paisagem ao seu redor sucumbir ao crescimento urbano desordenado, periférico e não menos abandonado do que ele mesmo. Corroído pelo tempo e saqueado até os tijolos, o Castelo de Engady hoje é reflexo da falta de planejamento, de projetos e de atenção para a conservação e uso do nosso patrimônio artístico, histórico, paisagístico e cultural, e não é o único. Num passeio rápido pelas principais ruas do centro da cidade veremos parte significativa do nosso patrimônio arquitetônico, (casas e casarões antigos), destruída pela especulação imobiliária de alguns riquinhos que põem abaixo qualquer imóvel que valha a pena ser derrubado para dar lugar ao nada. Em meio a destruição do pouco que ainda nos resta, sobra o descaso que entristece a memória que se perde na indiferença do que fomos e se choca com o que nos tornamos. Aos poucos, estamos virando a cidade do já teve!
Requalificar o Castelo de Engady é uma iniciativa louvável que nos alivia a angústia de vê-lo virar um castelo de areia, mas pelo que nos parece, mesmo com um montante de R$ 350 mil para colocar o projeto em andamento, falta saber o que realmente fazer com ele depois. Segundo o noticiado, a finalidade é transforma-lo em um Centro de Referência Cultural e Popular do Seridó, fortalecendo, com isso, o turismo, e esse discurso de turismo, por aqui, é algo que não sai da pauta das intenções. Assim, pergunto – Como este Centro será financiado para tocar os futuros projetos que ali deverão ser realizados? Ou será que acontecerá com ele, após reformado, o mesmo destino do Centro Cultural Adjuto Dias? Pois é sabido que este espaço também foi construído para a difusão das artes e da cultura local, já passou por várias reformas mal concluídas, e continua quase que inativo na sua produção artística cotidiana. Virou uma mosca branca!
E para não dizer que não falei das chuvas…
As águas de março já estão molhando nosso chão. Rios e riachos correm alvoroçados na esperança por dias melhores trazidos pelas chuvas que lavam os sangradouros dos açudes que há tempos não transbordavam de seus leitos; mas parece que somos indignos dessa graça quando desperdiçamos tão precioso líquido pelas correntezas das incompetências governamentais que não conseguem tapar o buraco da inoperância e dos discursos vazios para concluir as reformas da barragem Passagem das Traíras e da monumental obra da barragem das Oiticicas. No lago das esperas, anos já se vão, e as águas também, inconformadas, revoltosas, por falta de acolhimento não esperam por promessas, seguem em desalento seu rumo para o mar. Enquanto isso, seguimos nós, como dom Quixote, enfrentando moinhos de ventos, construindo castelos de areia.


