Artigo: Na política, a mão que afaga é a mesma que apredeja

Futurologia em política é algo que não combina. A política, como boa ciência que é, dialoga com a dialética e com muito pragmatismo, sua lógica se estabelece pela dinâmica das conjunturas que se consolidam nos interesses, estratégias e no humor da população; desde os gregos e romanos que tem sido assim, o que muda é a história, os personagens e os resultados. Mas, um ingrediente tem o poder de temperar as disputas políticas com forte influência nas decisões – a vontade popular -, esta, na maioria das vezes antecipa os resultados pelas vozes consonantes que ecoam das ruas, bares, locais de trabalho e residências, como uma prévia aos resultados das disputas. Em época de eleições, candidatos podem sentir o peso da aceitação ou rejeição a seus nomes e candidaturas ouvindo o eco da opinião pública, que geralmente nunca falha.

Em Caicó, nos últimos 24 anos, os resultados das eleições municipais têm seguido esta lógica, o sentimento voluntário da população pré-determina quem ganha e quem perde, antes mesmo do abrir das urnas. No ano 2000, o então vereador e presidente da Câmara Roberto Germano, surge como a novidade política para corrigir o desastre administrativo dos então prefeitos Vivaldo Costa/Nilson Dias e vai para a disputa eleitoral apoiado pela frustração de parte do eleitorado desencantada com a administração do Papa Jerimum; resultado, Roberto é eleito prefeito de Caicó com 16.098 votos, derrotando com 1.344 votos de maioria, a maior liderança política da região. Nesta eleição já se observa o prenúncio de um sentimento de mudanças expressado pela população, um tanto quanto já cansada com a mesmice que se arrasta por décadas de disputas entre as bandeiras desbotadas pelo tradicionalismo eleitoral(a verde e a vermelha), e a eleição de Roberto Germano no apagar das luzes do velho século XX passa a representar este sentimento de mudanças.

Apesar de ter sua gestão aprovadíssima pela população, Germano titubeia, não compreende seu papel no centro das disputas política local e não concorre à reeleição em 2004. Decepcionando aliados e simpatizantes retorna ao ninho vivaldista e ajuda a eleger Bibi Costa prefeito que vence o pleito com margem significativa de 15.978 votos.Quatro anos depois, em 2008, indiferente a uma aprovação popular expressiva da gestão de Bibi, Roberto coloca seu nome como candidato a prefeito e perde a eleição para um Bibi pragmático, reeleito com 17.807 votos. Mas, o pragmatismo popular funciona numa órbita diferente da visão que muitas lideranças têm de si mesmas ante seu lugar nas disputas eleitorais, e a vontade dos caicoenses, inconstante e insatisfeita com os rumos do segundo mandato de Bibi, se apoia nas vozes do descontentamento que dar força ao coro do “Volta Roberto”. Entusiasmado, Roberto capitaliza o chamado das ruas, coloca a candidatura mais uma vez em campo e vence as eleições de 2012 com 17.875 votos, o que faz dele o prefeito mais votado de Caicó nos últimos 24 anos, assumindo pela segunda vez, os comandos da prefeitura.

Como dizia o saudoso senador Agenor Maria, “a política é dinâmica e muda como nuvens no céu…”, e esta máxima empírica diz muito de como as coisas acontecem em Caicó. Nas eleições municipais de 2016, o sentimento de mudança na política se reacende com os rumos frustrantes do segundo mandato de Germano, o povo oferece ao mesmo o troféu da derrota e brinda um radialista falante e populista, Robson Araújo (Batata) com um mandato de prefeito que, muito antes do processo eleitoral seiniciar, este já gozava de forte simpatia no seio do povo. Seu carisma artificial e uma crítica genérica sobre tudo lhegarantiu a vitória, fortalecido por um discurso fácil de mudanças. Sem maiores critérios, os caicoenses continuavam buscando uma alternativa ao cansaço político ocasionado pelo tradicionalismo político local e Batata foi o escolhido, vitorioso com 12.687 votos. Inexperiente, com uma equipe administrativa que deixou a desejar, afastado do cargo e preso temporariamente, a gestão que prometia o novo envelheceu antes da hora e não demorou a ruir. No meio dessa pressão, mais um “líder” popular, acolhido pela ansiedade da população por mudanças, volta pra casa desmoralizado. O povo não perdoou!

Derrotado em 2016, o jovem médico vivaldista Judas Tadeu manteve o foco, organizou seu palanque e venceu facilmente as eleições em 2020. Sem maiores argumentos, o povo acolheu, antecipadamente, sua proposta e lhe deu 14.248 votos,foi o retorno da prática vivaldista de governar apoiada numa relação político-administrativa-popular de pão e circo. Agora, Tadeu quer a reeleição e a conjuntura lhe é favorável. Pelos quatro recantos da cidade o povo se antecipa aos resultados e,espontaneamente, declara a vitória de Tadeu como certa. Em meio as disputas, melhor esperarmos o abrir das urnas. Só não esqueçamos de uma regra básica: Na política, é sempre bom ficar atento, poisem se tratando do povo, a mão que afaga, é a mesma que apedreja!

Antônio Neves – Professor e historiador

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