Além de investigar suspeitas de coação atribuídas a Jair e Eduardo Bolsonaro e ao pastor Silas Malafaia, chama atenção no relatório de mais de 170 páginas da Polícia Federal (PF) e e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a movimentação de dinheiro vivo pela família do ex-presidente. No período de janeiro a julho, foram feitos 40 saques por Bolsonaro, alcançando R$ 130,8 mil, mais de dois salários mínimos por dia.
A PF destaca ainda no relatório de indiciamento que, durante diligência em sua residência, foram encontrados comprovantes de operações de câmbio realizadas em 12 de maio e 23 de junho de 2025. Em ambas as ocasiões, houve aquisição de 3 mil dólares em espécie. Segundo os investigadores, o ex-presidente teria adotado ao longo do primeiro semestre do ano uma estratégia reiterada e fracionada de compra de moeda estrangeira, com retirada em espécie em agências bancárias, para evitar o acionamento de mecanismos de controle legal.
Embora parte desses valores pudesse estar relacionada a despesas cotidianas ou deslocamentos em agendas públicas, o volume elevado de operações em espécie, segundo a PF, é “indício relevante no contexto probatório, considerando os riscos associados à falta de rastreabilidade e a possibilidade de financiamento de ações de caráter ilícito”, destaca investigadores.
O documento ainda aponta uma movimentação financeira significativa às vésperas de um depoimento oficial. Em 4 de junho de 2025, um dia antes de ser ouvido no inquérito 4.995 da própria Polícia Federal, Bolsonaro transferiu R$ 2 milhões para a esposa, Michelle Bolsonaro, e o mesmo valor ao filho, deputado Eduardo Bolsonaro. Essa coincidência temporal é enfatizada pelos investigadores:
Dois salários mínimos sacados por dia
Em um cruzamento de dados realizado pela Fórum, é possível perceber a partir dos últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que o ex-presidente teria sacado por dia o que mais de 70% da população brasileira recebe no período de um mês no país.
Dados recentes da PNAD Contínua revelam que 7 em cada 10 brasileiros com carteira assinada recebem em média R$ 2,5 mil atualmente. O IBGE aponta que o rendimento mensal real domiciliar per capita chegou ao maior valor da série em 2024: R$ 2.020, com alta de 4,7% ante 2023. Em relação a 2012 (R$ 1.696), ano inicial da série histórica, a elevação foi de 19,1%.
Revista Fórum*

