Por Antônio Neves – Professor e historiador
O trocadilho do título deste texto é reflexivo. Foi no 7 de setembro de 1822 que D. Pedro de Alcântara, legítimo herdeiro do trono português, proclamou a independência da sua colônia nos trópicos e foi coroado imperador e “Defensor Perpétuo” do Brasil, uma ironia do século XIX, isso porque, o Brasil passa a ser governado por um estrangeiro, o próprio D. Pedro e, ao invés de se tornar uma República, como a maioria dos países do hemisfério sul do continente americano, tornou-se uma monarquia que vai durar até 1889.
No contexto de 1822, os acontecimentos da independência refletem a mentalidade da época, expressa os interesses dos mandatários da nação que nascia tutelada por uma elite agrária conservadora, patriarcal e centrada no tripé: Terra, Família e Religião, condição esta que manteve a estrutura econômica sustentada pelo violento regime escravagista, uma população analfabeta, mulheres oprimidas e uma consaguinidade estratégica entre Igreja (católica) e o Estado brasileiro, onde o padroado alimentava as conveniências de poder entre o Clero e o Imperador. A comemorada independência de 1822 não mudou a estrutura social, política e econômica da nova nação que ali nascia, mas serviu como pilastra para as desigualdades que se aprofundariam dali até hoje.
A data simbólica do 7 de setembro ficou para o Brasil como momento casual da nossa história. O grito retumbante de “Independência ou Morte”, romanticamente exibido em filmes e livros didáticos escolares, ecoa todos os anos nos desfiles cívico-militares pelas ruas das cidades brasileiras, como sinônimo de celebração do nosso patriotismo. Criado em 1920, esses desfiles vão se intensificar na Era Vargas, sobretudo, no Estado Novo, onde estudantes, associações civis e Forças Armadas exibem suas concepções sobre esta tal Independência. Entre 1822 a 2025, a brava gente brasileira construiu seus entendimentos sobre os significados desta conquista histórica, mas, por hora, se ver refém de ideias confusas de patriotismo e nação. Algumas coisas não estão bem compreendidas nesse contexto atual em que o Brasil vive suas lutas políticas e sociais, principalmente quanto a defesa da democracia e da soberania nacionais. A nossa independência que desde o século XVIII tem nos custado caro, está sob ataque, aqui e lá fora.
A realidade do Brasil independente de 2025 exige do povo lutas tão intensas quanto as que antecederam o 7 de setembro de 1822, tanto quanto, compreensão sobre o que está em jogo agora, como forma de garantir um Brasil livre no futuro. Independência, soberania e democracia são sinônimas de nação forte, participativa e inclusiva, com garantias de direitos que promovam igualdade e justiça social, coisas que não podem ser ignoradas, nem negociadas pelo querer de grupos e segmentos políticos ou econômicos que operam à margem da Constituição e contra o povo, em nome de um falso patriotismo político e moral que pretende governar o país sob viés autoritário. Sob esta lógica, desde 1889, alguns vendilhões, golpistas e traidores da pátria já nos governaram e os resultados foram os piores possíveis.
Mas, como em 1822, ainda hoje as elites brasileiras não dormem em serviço, se acomunam, se articulam, tramam na surdina, se corrompem, seja no Congresso Nacional, na avenida Faria Lima ou nas mansões do poder do eixo São Paulo-Brasília; arregimentam pelo medo ou pelo ódio, setores desinformados da sociedade que servirão de massa de manobras para apoiar golpes e medidas de lesa-pátria para favorecê-los, contando com a impunidade de anistia política.
Na nossa história recente de 2013 a 2022, o Brasil se viu atropelado por golpes, tentativas de golpes e ações desestabilizadoras da política nacional, patrocinados por grupos político-partidário-religiosos (de direita e extrema-direita) que pretendem fazer do país um quintal de falsos patriotas bitolados pela retórica ideologizada do lema: Deus, Pátria e Família. Não obstante, países como os Estados Unidos da América, que em 1822 foi um dos primeiros a reconhecer a Independência do Brasil, ergue-se contra nós usando mentiras e ações orquestradas por setores golpistas daqui para atentar contra nossa soberania. A política de tarifaços que fere diretamente nossa economia é parte de uma estratégia planejada por criminosos políticos brasileiros que hora estão no banco dos réus do STF, sendo julgados por tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito.
Para a História, o que fica deste cenário é a lição de que as lutas pela independência e soberania no Brasil não cessaram com a entronização de D. Pedro I, em 1º de dezembro de 1822, mas segue exigindo dos cidadãos brasileiros, consciência política e intransigente defesa da democracia com mais emprego, terra e educação, para identificar, com firmeza, quem são hoje os verdadeiros inimigos da nação; só assim, quem sabe, os desfiles cívicos-militares possam expressar os mais legítimos e patrióticos desejos de uma nação verdadeiramente independente e libertária. Sem anistia para golpistas e traidores!


