Alvos centrais da Operação Carbono Oculto, considerada a maior ofensiva já deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal contra a infiltração do crime organizado na economia formal, os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, apelidado de Primo, negociam um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo.
Foragidos da Justiça, os dois empresários afirmam, por meio de interlocutores, que estão dispostos a colaborar com as investigações e revelar, “com provas”, um amplo esquema de corrupção envolvendo parlamentares e autoridades do Executivo.
As informações foram divulgadas pelo Estadão nesse sábado (31). Segundo o jornal, Beto Louco e Primo teriam informações suficientes para “derrubar metade do Congresso”, que envolveriam mais de R$ 500 milhões em pagamento de propinas.
Ambos negam qualquer ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), apesar de serem apontados como os principais alvos da operação que mirou o chamado “andar de cima” da facção criminosa, com atuação em empresas, fundos de investimento e instituições financeiras sediadas na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Investigações sobre Beto Louco e Primo
De acordo com pessoas próximas à negociação, os empresários dizem possuir mensagens de WhatsApp que indicariam encontros presenciais — diretos ou por meio de intermediários — para a entrega de propinas.
Os pagamentos teriam sido feitos em troca de favorecimentos e “alívio regulatório” no setor de combustíveis, área explorada por eles por meio de uma extensa rede de postos supostamente vinculada ao esquema criminoso.
Em nota, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, afirmou que as investigações não se restringem a empresários. “Chegaremos não só a empresários e empresas, mas a agentes públicos e eventualmente até políticos. Nosso objetivo é impessoal”, declarou.
Segundo ele, qualquer pessoa envolvida em qualquer etapa da cadeia criminosa deverá se explicar e estará sujeita às sanções penais, administrativas e cíveis cabíveis.
As tratativas para um eventual acordo de delação ainda estão sob análise dos promotores responsáveis pela Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto do ano passado, e não passam diretamente pela Procuradoria-Geral de Justiça.
Além do setor de combustíveis, a operação alcançou fintechs e fundos de investimento localizados na capital paulista. Investigadores estimam que braços do PCC tenham movimentado cerca de R$ 52 bilhões no período analisado, com recursos pulverizados em aproximadamente 40 fundos de investimento.
Segundo as apurações, a BK Bank teria registrado R$ 17,7 bilhões em movimentações financeiras suspeitas, sendo que cerca de 80% desse volume estaria relacionado ao PCC. À época, a instituição informou que foi surpreendida pela operação e afirmou atuar com transparência e rigorosos padrões de compliance.
Entre as empresas citadas na investigação está a Reag Investimentos, que administrava o fundo Location no primeiro semestre de 2020. O único cotista era Renato Steinle de Camargo, apontado pelos investigadores como “testa de ferro” de Beto Louco e Primo.
Procurado, o advogado que representa Beto Louco e Primo informou que não comentaria as tratativas com o Ministério Público de São Paulo.


