O escândalo internacional envolvendo o financista americano Jeffrey Epstein, acusado de comandar uma rede de exploração sexual de menores, ganhou desdobramentos no Rio Grande do Norte após a divulgação de milhões de páginas de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Parte do material menciona o RN e indica possível tentativa de aliciamento de uma jovem da Região Metropolitana de Natal.
Diante das revelações, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento sigiloso para apurar eventual conexão brasileira com o esquema atribuído a Epstein. A investigação está sob responsabilidade da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC), em Brasília.
Segundo o MPF, as apurações tramitam sob sigilo “dada a sensibilidade do tema e a necessidade de proteção das vítimas”. O órgão informou que acompanha a divulgação dos arquivos e está atento a fatos que envolvam cidadãos brasileiros ou que tenham sido praticados em território nacional.
Os documentos americanos, que integram investigações conduzidas ao longo de mais de uma década, indicam que cerca de 250 meninas teriam sido exploradas pelo financista, muitas delas menores de idade, entre 2002 e 2005.
E-mails citam jovem da Grande Natal
Trocas de mensagens datadas de 2011 mostram uma mulher identificada como Alexia intermediando a possível ida de uma jovem dos arredores de Natal aos Estados Unidos para encontrar Epstein. Nos diálogos, a jovem é descrita como oriunda de “família simples”, sem domínio do inglês e sem experiência em viagens internacionais. Conversas foram divulgadas pelo jornalista Habyner Lima.
Em uma das mensagens, a interlocutora afirma ter enviado uma foto da jovem e diz que o financista “iria adorá-la”. A resposta atribuída a Epstein solicita novas imagens, especificando fotos de “lingerie ou biquíni”. Também há pedido de recursos para viabilizar a emissão de passaporte e visto.
Os registros não informam a idade da jovem, tampouco confirmam se a viagem ocorreu. Especialistas ouvidos na apuração destacam que menção em e-mails não configura culpa ou comprovação de crime, mas defendem investigação rigorosa diante do teor das mensagens e da eventual vulnerabilidade da pessoa citada.
A denúncia encaminhada ao MPF no Rio Grande do Norte menciona possível “aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal possivelmente para a prática de atos sexuais” com o financista nos Estados Unidos.
Empresa em Parnamirim e conexões internacionais
O nome de Alexia Righi Suriani aparece vinculado a uma empresa registrada em Parnamirim, com capital declarado de R$ 10 milhões. Registros públicos indicam endereço também atribuído a ela em Nova York, nos Estados Unidos.
A documentação integra um conjunto maior de arquivos que mencionam viagens de associados de Epstein ao Brasil, inclusive ao Nordeste. Entre os nomes citados nas investigações internacionais está o agente de modelos Jean-Luc Brunel, apontado como colaborador do financista na captação de jovens em diferentes países. Brunel foi encontrado morto em prisão na França em 2022, onde respondia a acusações de abuso sexual — que negava.
Também há menções a estratégias de aproximação por meio do mercado da moda e de agências internacionais, modelo semelhante ao que, segundo promotores americanos, teria sido utilizado por Epstein e sua ex-companheira, Ghislaine Maxwell, condenada nos EUA por tráfico sexual de menores.
Atuação do MPF e desafios jurídicos
A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges, integrante da UNTC, afirmou que o procedimento busca identificar se houve aliciamento de mulheres brasileiras e se existia eventual rede estruturada no país.
Ela destacou que os fatos remontam a mais de dez anos e podem envolver atos praticados fora do Brasil, o que amplia a complexidade probatória. Além disso, mudanças na legislação brasileira sobre tráfico internacional de pessoas, ocorridas em 2016, passaram a exigir prova de fraude, coação ou abuso de vulnerabilidade para configuração do crime.
O procurador-chefe no Rio Grande do Norte, Gilberto Barroso de Carvalho Júnior, comunicou formalmente o recebimento de informações que deram origem à apuração preliminar.
O MPF ressaltou que as mulheres mencionadas nos documentos não são alvo da investigação como autoras de crimes. “As vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos praticados na condição de vítimas de tráfico de pessoas”, afirmou a instituição.
Investigação jornalística e responsabilidade
A análise dos documentos contou com apoio técnico do advogado digital Dayvson Moura, cuja atuação permitiu o acesso e a organização do material obtido a partir de bases públicas e arquivos oficiais. Segundo os responsáveis pelo levantamento, o trabalho foi conduzido com rigor técnico e respeito aos limites éticos na obtenção e no tratamento dos conteúdos.
As imagens e registros mencionados integram atividade jornalística investigativa amparada pelos princípios constitucionais da liberdade de imprensa e do direito à informação. Os responsáveis ressaltam que não se trata de acusação formal nem de conclusão criminal, mas de contextualização documental diante de informações de interesse público.
A eventual responsabilização de pessoas citadas dependerá de apuração pelas autoridades competentes. Enquanto isso, o caso reforça a dimensão internacional do escândalo que levou à prisão de Epstein em 2019. O financista foi encontrado morto em sua cela em Nova York, no mesmo ano, e a autópsia concluiu que ele tirou a própria vida.
Mesmo após sua morte, promotores americanos sustentam que outras pessoas envolvidas no esquema podem ser responsabilizadas — e as novas revelações indicam que os desdobramentos ainda estão longe de se encerrar, inclusive no Brasil.
Agora RN*


