Os 96 milhões que não decidiram em quem votar

O Seu Valdir tem uma loja de material de construção em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Quando perguntamos o que ele esperava de 2026, a resposta não teve nada a ver com Brasília: “Estou calculando quantos sacos de cimento a mais eu vendo se o movimento da Copa esquentar o comércio aqui.” Valdir até pensa na eleição. Mas a eleição não pensa nele. Ou melhor: ainda não apareceu quem fale a língua do boleto dele.

Valdir é um entre 96 milhões.

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana, a primeira pergunta eleitoral do questionário — a de número 9, feita antes de qualquer estímulo, antes de qualquer cartela com nomes de candidatos — revelou que 62% dos eleitores brasileiros simplesmente não souberam dizer em quem pretendem votar para presidente. Sem ajuda, sem empurrão, sem lembrete. Sessenta e dois por cento. Traduzindo: são cerca de 96 milhões de brasileiros que, hoje, não verbalizam espontaneamente um candidato à Presidência da República. Se não verbaliza, o voto não é consolidado. É fumaça, não fogo.

Esse número deveria ser o centro de qualquer análise sobre 2026. E não é por capricho metodológico. É por um motivo que qualquer eleitor entende na hora: a urna eletrônica funciona por voto espontâneo. Ninguém chega na cabine e encontra uma cartela com os nomes dos candidatos para escolher. O eleitor digita um número. Se ele não sabe esse número, se não tem esse nome grudado na cabeça, o voto estimulado das pesquisas é cenário, não sentença. É temperatura, não diagnóstico.

Mas vamos supor que esse argumento não convença. Vamos supor que alguém diga: “Renato, esses 62% são frouxos, muita gente ali vai acabar lembrando na hora”. Tudo bem. Vamos deixar o espontâneo de lado e olhar outro dado da mesma Quaest: 43% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de voto. São quase 67 milhões de brasileiros que já declararam uma intenção de voto e, mesmo assim, dizem que não bateram o martelo. Gente que respondeu um nome ao entrevistador, mas com a convicção de quem escolhe sabor de sorvete na fila — sabe que pode trocar antes de chegar no caixa.

Somando as duas coisas, o que temos é o retrato de uma eleição desenhada, mas não decidida. Os protagonistas existem. Os campos estão montados. Lula de um lado, a marca Bolsonaro de outro. Mas entre o campo montado e o voto depositado na urna existe um oceano de incerteza que nenhuma manchete de pesquisa deveria esconder.

O Seu Valdir não está sozinho. Ele faz parte de uma massa gigantesca de brasileiros que reconhece os nomes do jogo, mas ainda não fechou emocionalmente essa conta. Gente que está mais preocupada com o preço do gás, com a parcela do carro, com a vaga do filho na creche do que com a disputa entre Brasília e Brasília. Essa gente vai decidir a eleição. Mas vai decidir mais perto da urna, quando o barulho da campanha finalmente competir com o barulho da vida real.

Quem olha para abril e enxerga outubro está confundindo ensaio com estreia. As pesquisas mostram tendência, inclinação, ponto de partida. Não mostram chegada. E quem garante que sabe o resultado de uma eleição em que 96 milhões ainda não sabem dizer um nome e 67 milhões admitem que podem mudar está, no mínimo, mal informado. Ou, no máximo, vendendo certeza que não tem.

A eleição de 2026 ainda não começou para quem vai decidir 2026. E o Seu Valdir continua fazendo conta de cimento.

Renato Meirelles – O Globo

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