O potiguar Abraão Lincoln, presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), foi indiciado pela Polícia Federal no primeiro relatório final da ‘Operação Sem Desconto’, que investiga um esquema nacional de descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O dirigente integra a lista de 48 indiciados na investigação, considerada um dos maiores escândalos recentes envolvendo benefícios previdenciários.
Segundo a Polícia Federal, Abraão Lincoln é investigado por suposta participação nos crimes de inserção de dados falsos em sistema de informações, corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores. O indiciamento representa a primeira conclusão formal das investigações e deverá subsidiar eventual oferecimento de denúncia pelo Ministério Público Federal.
As apurações apontam que a CBPA arrecadou aproximadamente R$ 221,16 milhões entre fevereiro de 2023 e março de 2025. De acordo com a investigação, os recursos tiveram origem em descontos realizados diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS sem autorização dos segurados.
Prisão na CPMI do INSS
O nome de Abraão Lincoln já havia ganhado repercussão nacional em novembro do ano passado, quando foi preso em flagrante após prestar depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigava as fraudes no INSS. Na ocasião, parlamentares apontaram contradições em suas declarações, levando à prisão por suspeita de falso testemunho.
A Operação Sem Desconto apura um esquema de abrangência nacional envolvendo entidades associativas que, segundo a Polícia Federal, realizavam descontos irregulares diretamente nos benefícios previdenciários. O primeiro relatório final reúne dezenas de investigados, entre eles Antônio Camilo Antunes, o ‘Careca do INSS’, e Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS, e deve servir de base para o prosseguimento das ações penais relacionadas ao caso.
Operação Enredados e histórico de investigações
Além da Operação Sem Desconto, Abraão Lincoln acumula um histórico de investigações policiais.
Entre elas está a Operação Enredados, deflagrada em 2015 para apurar um esquema de corrupção envolvendo a concessão irregular de licenças ambientais para embarcações pesqueiras.
O dirigente também responde a processos relacionados a corrupção, advocacia administrativa, falsidade ideológica e crimes ambientais, episódios que, ao longo dos últimos anos, colocaram seu nome no centro de diferentes investigações envolvendo o setor pesqueiro.
Apesar desse histórico, Abraão Lincoln manteve atuação à frente da CBPA e continua participando das articulações políticas no Rio Grande do Norte, preservando influência junto a lideranças do Estado.
Alianças políticas no RN
Paralelamente às investigações, Abraão Lincoln passou a aparecer com frequência em agendas políticas no Rio Grande do Norte, tornando-se presença constante ao lado de pré-candidatos no período eleitoral de 2026.
Nos últimos meses, Abraão Lincoln foi visto em eventos ao lado da pré-candidata a deputada estadual Cinthia Pinheiro (União Brasil), esposa do pré-candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra; do pré-candidato ao Senado Rafael Motta (PDT); e do ex-deputado Kelps Lima (União Brasil), que desistiu da disputa por uma vaga na Câmara Federal na última semana. As aparições ocorreram principalmente em municípios da região da Costa Branca, onde Abraão Lincoln mantém influência política ligada ao setor pesqueiro.
Um episódio, porém, chamou atenção nos bastidores. Durante agenda em São Bento do Norte, interlocutores relataram que Allyson Bezerra evitou aparecer publicamente ao lado do dirigente, embora, segundo essas mesmas fontes, o evento tivesse sido organizado pelo próprio presidente da CBPA.
A proximidade também foi evidenciada em uma publicação divulgada no perfil do Instagram de Allan Cruz, filho de Abraão Lincoln, na qual Allyson, Cinthia, Rafael, Kelps e o próprio Allan aparecem reunidos e são apresentados como integrantes do chamado “time de Allan”.
Nos bastidores, o entendimento é que o indiciamento pela Polícia Federal tende a aumentar a pressão sobre essas aproximações políticas, especialmente em um momento em que a pré-campanha eleitoral entra em sua fase decisiva e as alianças dos principais grupos passam a ser observadas com maior atenção.


