O Seridó é apontado como a região do Rio Grande do Norte que exige maior atenção diante da possibilidade de agravamento dos efeitos do El Niño sobre o regime de chuvas. A preocupação está relacionada não apenas à previsão de precipitações abaixo do normal, mas principalmente ao baixo nível de recarga registrado em grande parte dos reservatórios durante o período chuvoso deste ano.
De acordo com o secretário estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, Paulo Varella, a situação dos açudes do Seridó deixa a região mais vulnerável para enfrentar um eventual período de estiagem prolongada. Embora o fenômeno climático possa atingir praticamente todo o território potiguar, a condição atual da infraestrutura hídrica faz com que o impacto potencial seja considerado maior naquela área.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A alteração na temperatura do oceano modifica padrões da circulação atmosférica e pode influenciar o comportamento das chuvas em diferentes regiões do planeta. No Nordeste brasileiro, um dos efeitos associados ao fenômeno é justamente a possibilidade de redução das precipitações.
No Rio Grande do Norte, a preocupação aumenta porque mais de 95% do território estadual está localizado na região semiárida. Isso significa que uma parcela expressiva do Estado já convive naturalmente com baixos índices de chuva e elevada variabilidade climática, tornando a disponibilidade de água nos reservatórios um fator estratégico para o abastecimento da população e para a economia.
Segundo o meteorologista da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn), Gilmar Bistrot, o El Niño já apresenta intensidade classificada como “forte” e a previsão é de que possa alcançar a categoria “muito forte” entre os meses de outubro e novembro deste ano.
A classificação da intensidade do fenômeno é um dos elementos considerados pelos especialistas para avaliar possíveis alterações no comportamento climático. Entretanto, a presença do El Niño, por si só, não determina exatamente quanto vai chover em cada localidade.
As condições atmosféricas regionais, a distribuição temporal das precipitações e outros fatores climáticos também influenciam diretamente o resultado observado no território potiguar. Por isso, o acompanhamento das previsões meteorológicas ao longo dos próximos meses será fundamental para identificar a evolução do cenário.
Para Paulo Varella, o principal ponto de preocupação no Seridó é a situação dos reservatórios após o último período chuvoso. Segundo o secretário, a região não conseguiu uma recarga hídrica significativa na maioria dos açudes, o que reduz a margem de segurança para enfrentar uma possível diminuição das chuvas.
“Dentro da questão da vulnerabilidade, a área do Seridó aparece como uma área que merece uma atenção especial. Não pela quantidade de chuva diferenciada em relação aos outros, mas pela recarga dos reservatórios que foi estabelecida neste ano”, afirmou.
Oiticica é uma das exceções no cenário dos reservatórios
Entre os principais reservatórios do Seridó, a Barragem de Oiticica aparece como uma exceção diante do baixo volume de recarga registrado em outros açudes. Segundo o secretário, o reservatório chegou a aproximadamente 75% de sua capacidade de armazenamento.
A Barragem de Oiticica possui capacidade para armazenar cerca de 560 milhões de metros cúbicos de água e representa uma das principais estruturas de segurança hídrica em implantação no Rio Grande do Norte.
O cenário, entretanto, foi diferente em outros reservatórios estratégicos da região. Açudes como Gargalheiras, Dourado, Sabugi, Boqueirão de Parelhas, Esguicho, Passagem das Traíras e Itans tiveram uma recarga considerada muito baixa durante o período chuvoso.
“Praticamente todo o resto da açudagem potiguar não pegou água. Os açudes de Gargalheiras, Dourado, Sabugi, Boqueirão de Parelhas, Esguicho, Passagem das Traíras, Itans, enfim, a açudagem do Seridó teve uma recarga pífia”, disse Varella.
A situação significa que parte dos reservatórios entra no período de maior risco climático com uma quantidade de água inferior àquela considerada desejável para garantir maior segurança durante meses de chuvas reduzidas.
Semiárido deve concentrar os principais impactos
A expectativa apresentada pelo Governo do Estado é de que os efeitos do El Niño sobre as chuvas sejam sentidos de maneira mais significativa nas áreas do semiárido potiguar. O litoral leste, por outro lado, tende a apresentar uma influência menor do fenômeno sobre o regime de precipitações.
A diferença é importante porque o interior do Estado possui características climáticas distintas das observadas na faixa litorânea. No semiárido, a irregularidade das chuvas e os períodos prolongados de estiagem tornam a dependência dos reservatórios, das adutoras e de outras estruturas de abastecimento ainda maior.
Uma redução significativa das precipitações pode diminuir a possibilidade de recuperação dos açudes e dificultar a recomposição dos estoques de água utilizados para abastecimento humano, produção rural e outras atividades.
Além da quantidade total de chuva, a distribuição das precipitações também será determinante. Chuvas concentradas em poucos episódios podem não produzir o mesmo resultado de precipitações mais regulares, principalmente quando o solo está seco e os reservatórios apresentam baixos níveis de armazenamento.
Abastecimento das cidades pode ser afetado
Um dos principais pontos de preocupação diante de um cenário de chuvas abaixo da média é o abastecimento da população. Com menor entrada de água nos reservatórios, aumenta a necessidade de administrar cuidadosamente os volumes disponíveis e definir estratégias para garantir o fornecimento durante os períodos mais secos.
A redução da recarga também pode exigir maior utilização de sistemas de adutoras, poços, carros-pipa e outras alternativas de abastecimento em localidades mais vulneráveis.
“A redução do padrão das chuvas implicará em impactos no abastecimento das cidades, porque haverá restrição de recarga dos açudes, dos nossos reservatórios. Haverá impactos do ponto de vista econômico e social”, afirmou Varella.
Os impactos não se limitam às cidades que dependem diretamente de grandes açudes. Sistemas de abastecimento interligados também podem sentir os efeitos de uma redução prolongada da disponibilidade hídrica, especialmente quando a demanda permanece elevada.
Por esse motivo, o planejamento antecipado é considerado uma das principais ferramentas para reduzir os riscos. Quanto menor for a disponibilidade de água acumulada antes do início de uma estiagem, maior tende a ser a necessidade de medidas de gestão e contingência.
Agricultura e pecuária também estão entre as áreas de risco
A agropecuária é outro setor diretamente exposto a uma eventual redução das chuvas. Na agricultura de sequeiro, que depende essencialmente das precipitações naturais, a irregularidade do período chuvoso pode comprometer o desenvolvimento das lavouras.
Culturas como milho e feijão estão entre as que podem sofrer perdas de produtividade caso haja redução da umidade do solo ou distribuição irregular das chuvas durante as etapas mais importantes do ciclo produtivo.
Na pecuária, uma das principais preocupações é a disponibilidade de pastagem e de forragem para alimentação dos animais. Com menos chuva, a vegetação disponível para os rebanhos pode diminuir, aumentando a necessidade de compra de alimentos e, consequentemente, elevando os custos de produção.
A pecuária leiteira merece atenção especial porque exige disponibilidade regular de água e alimentação ao longo de todo o ano. Uma estiagem prolongada pode aumentar os custos para manutenção dos animais e afetar a produtividade.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Rio Grande do Norte (Faern) defendeu que a preparação para um possível período de chuvas abaixo da média deve começar antes da confirmação de impactos mais severos.
Entre as medidas apontadas pela entidade estão o planejamento antecipado das atividades, o uso de tecnologias de irrigação mais eficientes, a definição dos calendários de plantio com base nas informações meteorológicas e a formação prévia de reservas de alimentação para os rebanhos.
“Caso se confirme um período de chuvas abaixo da média ou mal distribuídas, podemos ter redução da umidade do solo, perdas de produtividade nas lavouras de sequeiro [ex: milho e feijão], menor disponibilidade de pastagens e aumento dos custos de alimentação dos rebanhos. A pecuária de leite merece atenção especial porque necessita de oferta regular de água e alimento ao longo de todo o ano”, destaca a entidade.
Agricultura irrigada também pode enfrentar pressão
Embora a agricultura irrigada tenha maior capacidade de enfrentar períodos de irregularidade das chuvas, o setor também pode ser impactado por uma estiagem prolongada.
Com menos precipitações, aumenta a necessidade de utilização dos sistemas de irrigação para compensar a redução da umidade disponível no solo. Isso pode elevar o consumo de água e aumentar os custos de produção.
A pressão sobre os recursos hídricos pode ser ainda maior quando diferentes atividades dependem simultaneamente dos mesmos reservatórios ou fontes de abastecimento. Nesse cenário, a gestão da água disponível passa a ser fundamental para evitar conflitos de uso e garantir a continuidade das atividades prioritárias.
A Faern avalia que o momento exige planejamento, mas não deve ser tratado com alarmismo. Para a entidade, o fato de o El Niño estar configurado não significa que todos os efeitos previstos necessariamente ocorrerão com a mesma intensidade no Rio Grande do Norte.
“Existe um cenário que merece atenção e preparação, mas não de alarmismo. O El Niño está configurado, porém a intensidade dos seus efeitos no estado dependerá de como irão se comportar as chuvas nos próximos meses”, completa a entidade.
Estado mantém ações de segurança hídrica
Segundo Paulo Varella, a preparação para períodos de estiagem não começa somente quando a redução das chuvas já está instalada. O Governo do Estado mantém ações voltadas à segurança hídrica de forma permanente, com investimentos em armazenamento, distribuição e ampliação da infraestrutura de abastecimento.
Entre as iniciativas estão a recuperação de barragens, a conclusão da Barragem de Oiticica e a expansão da rede de adutoras. A estratégia busca aumentar a capacidade de armazenamento e, ao mesmo tempo, levar água a regiões que apresentam maior vulnerabilidade durante períodos de seca.
O secretário também citou o Projeto Seridó. De acordo com Varella, a primeira etapa da iniciativa deverá ser concluída até o fim deste ano. O projeto integra o conjunto de ações planejadas para reforçar a segurança hídrica da região considerada mais vulnerável diante do atual cenário climático.
Outra obra mencionada é a Adutora do Agreste, que já foi contratada e está em execução. Também estão previstos projetos destinados ao Alto Oeste potiguar.
Transposição do São Francisco faz parte da estratégia
As estruturas relacionadas à transposição do Rio São Francisco também integram o planejamento estadual para ampliar a segurança hídrica do Rio Grande do Norte.
Entre elas estão o eixo destinado ao atendimento do Seridó e o Ramal do Apodi, que fazem parte de uma estratégia mais ampla para aumentar a oferta de água em diferentes regiões do Estado.
A lógica das obras é reduzir a dependência exclusiva das chuvas locais e criar alternativas para transportar água de áreas com maior disponibilidade para regiões onde a demanda e a vulnerabilidade são maiores.
No caso do Seridó, essa estratégia ganha importância diante da condição dos reservatórios. Quanto menor for a recarga dos açudes, maior é a relevância de sistemas capazes de complementar a oferta hídrica.
Poços e dessalinizadores são alternativas em áreas vulneráveis
Além das grandes obras de infraestrutura, o Estado também utiliza alternativas descentralizadas para ampliar o acesso à água em comunidades que enfrentam dificuldades de abastecimento.
Entre as medidas estão a perfuração de poços e a instalação de dessalinizadores em localidades onde existe água subterrânea, mas ela não apresenta condições adequadas para o consumo humano.
Os dessalinizadores permitem retirar parte dos sais presentes na água e torná-la apropriada para determinados usos, especialmente em comunidades onde a qualidade da água subterrânea é um obstáculo.
Essas soluções não substituem os grandes sistemas de abastecimento, mas podem funcionar como mecanismos complementares, principalmente em áreas rurais e localidades mais isoladas.
Monitoramento dos reservatórios deve ser intensificado
A gestão dos volumes disponíveis é outro ponto considerado fundamental para enfrentar uma eventual piora do cenário climático.
O Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (Igarn) é responsável pelo acompanhamento e pela fiscalização das reservas hídricas estaduais. O monitoramento permite observar a evolução dos níveis dos reservatórios e orientar decisões relacionadas ao uso da água.
Caso a estiagem se agrave, a tendência é de intensificação desse acompanhamento para avaliar a necessidade de novas medidas de gestão.
O Estado também acompanha, em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Monitor de Secas. A ferramenta permite acompanhar mensalmente a evolução das condições de seca no território brasileiro e identificar áreas que apresentam agravamento ou melhora do quadro.
A análise desses dados é importante porque uma seca não é definida apenas pela ausência de chuva em determinado período. A evolução da umidade do solo, dos níveis dos reservatórios e das condições de disponibilidade de água também influencia o diagnóstico.
Planejamento será decisivo nos próximos meses
Diante da possibilidade de fortalecimento do El Niño, a estratégia para o Rio Grande do Norte deverá combinar obras de infraestrutura, monitoramento climático, gestão dos reservatórios e uso racional da água.
Para o secretário Paulo Varella, a segurança hídrica não depende exclusivamente da construção de novas estruturas. A administração eficiente dos recursos existentes e a participação da população também são componentes fundamentais para atravessar períodos de menor disponibilidade.
“A segurança hídrica depende tanto da infraestrutura quanto da gestão eficiente e da participação da população, que deve contribuir para o uso consciente da água”, afirmou.
A situação do Seridó, portanto, deverá continuar sendo acompanhada de perto nos próximos meses. A região chega ao período de possível agravamento do fenômeno climático com grande parte dos reservatórios apresentando baixa recarga, enquanto obras e sistemas de distribuição de água buscam ampliar a capacidade de resposta do Estado.
Apesar das preocupações, especialistas e representantes do setor produtivo reforçam que ainda não é possível afirmar que haverá uma crise hídrica generalizada. O comportamento efetivo das chuvas será determinante para definir a dimensão dos impactos.
O cenário, entretanto, reforça a necessidade de antecipação. Em um Estado majoritariamente inserido no semiárido, cada período chuvoso tem papel estratégico na recomposição dos reservatórios, na produção de alimentos, na manutenção dos rebanhos e na garantia do abastecimento das cidades.
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