A mãe do menino de 9 anos filmado com armas de brinquedo em uma manifestação bolsonarista em Parnamirim acionou a Justiça para regularizar a guarda do filho após o episódio. Segundo a conselheira tutelar Amanda Melo, a mulher também decidiu impedir que o pai saia com a criança enquanto aguarda uma definição judicial e a conclusão da investigação.
Amanda informou que os pais estão separados há cerca de oito anos e mantinham um acordo informal: o menino ficava com a mãe durante a semana e com o pai nos fins de semana. A mulher relatou que desconhecia a participação do filho no ato e soube das imagens por amigos. Após telefonar para o ex-companheiro, ele levou a criança de volta para casa.
O caso é acompanhado pelo Conselho Tutelar e investigado pela Polícia Civil. A mãe prestou esclarecimentos ao órgão e foi orientada a buscar a regularização judicial da guarda. Nenhuma medida de penalização foi aplicada a ela.
Os vídeos foram gravados na Avenida Castor Vieira Régis, no bairro Cohabinal. Nas imagens, o menino veste uma camisa da Seleção Brasileira e aparece sobre um veículo, cercado por adultos. Em um momento, ergue um objeto semelhante a uma pistola; em outro, segura uma imitação de fuzil.
Inicialmente, o registro foi associado a uma comemoração após o primeiro turno, no domingo 4. Pessoas que afirmam ter participado da concentração, porém, disseram que o episódio ocorreu no sábado 3, véspera da votação. Essa versão também foi apresentada pelo vereador e candidato a deputado estadual Gabriel César (PL), um dos organizadores do evento.
O Conselho Tutelar informou ter apurado que os objetos eram brinquedos. Amanda afirmou, entretanto, que a exposição colocou o menino em risco. “Quando ela está com aquele simulacro, aquele brinquedo, poderia, de certa forma, ser confundido com a arma e poderia até acontecer algo pior”, declarou.
Segundo a conselheira, o comportamento foi incentivado por adultos. “A criança, instigada pelo seu responsável, pelas pessoas que estavam ali, sobe em cima do capô do carro e faz menção à violência, usando armas que nós descobrimos aqui que eram armas de brinquedo”, afirmou.
Proteção à criança
A mãe relatou que o filho ficou abalado depois de acessar comentários sobre o episódio. Colegas da escola também reconheceram o menino após a circulação dos vídeos.
“Ele teve acesso às mensagens, mensagens até maldosas, falando com relação aos pais, trazendo muitas coisas horríveis, inclusive trazendo para a questão do viés político”, disse Amanda. O Conselho anunciou encaminhamento da criança para acompanhamento psicológico e pediu que a população evite ataques à família.
“Desde já a gente quer aqui deixar claro que a proteção à criança está acima de bandeiras partidárias”, ressaltou a conselheira. Ela orientou os responsáveis a não incentivar o uso de simulacros ou a reprodução de gestos relacionados à violência.
Amanda acrescentou que o menino apresentou melhora, recebeu ligações de amigos e voltou à escola. A Polícia Civil informou que os pais já foram identificados e que a apuração corre em segredo de Justiça.
Instituto pede apuração
Enquanto isso, o Instituto Potiguar de Direitos Humanos (IP-DH) protocolou uma notícia de fato no Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), solicitando esclarecimentos sobre as circunstâncias do episódio e medidas de proteção.
A vice-presidente da entidade, Idyane França, disse que a iniciativa não busca antecipar conclusões sobre responsabilidades. “Independentemente de quem sejam os pais, independente de quem fez o vídeo, o importante aqui é a defesa da criança”, declarou. O Instituto poderá oferecer assistência caso seja procurado.
A Polícia Civil informou que o caso será apurado pela 17ª Delegacia de Polícia de Parnamirim, com “diligências para apurar a situação, incluindo a coleta e análise das imagens disponíveis, a fim de esclarecer as circunstâncias do ocorrido”.
Amanda destacou que cabe à polícia ouvir os responsáveis e definir os próximos passos. O Conselho Tutelar concentra sua atuação na proteção e no acompanhamento da criança.


