A ignorância venceu o medo

   O ano de 2020 não vai terminar como o esperado, de certa forma, nem vai terminar, porque não começou, perdeu-se no limiar dos acontecimentos, dos impedimentos, do isolamento.

   A Covid-19 nos mostrou que somos frágeis demais, vulneráveis, teimosos e, muitos, ignorantes. Desafiamos o caos humano com a negação da crise sanitária de altas proporções entre a vida e a morte de pessoas em todas as partes do mundo, mas é como se, para alguns, isso tudo não passasse de invenções, ficções do faz-de-conta das histórias infantis, mas, ao vivo, o resultado da crise coronavírus tem se mostrado que não há previsão para o fim desejado.

   Chegamos dezembro e nos deparamos com um relaxamento total do isolamento social e da vigilância dos poderes públicos de estados e municípios para conter a pandemia. O grande número de aglomerações durante a campanha eleitoral, a abertura indiscriminada de bares e restaurantes, realizações de grandes eventos privados como festas, vaquejadas, abertura de templos religiosos etc, nos colocou diante do aumento dos casos de infecções e mortes. 

   Mas isso tudo nos obriga a enxergar um fato, nada novo, de que muitas pessoas de todas as idades, têm ignorado, constantemente, o coronavírus, passando a desobedecer, sistematicamente, regras e diretrizes impostas por decretos e outras normas aplicadas pelos governos estaduais e municipais para conter a pandemia. A questão é que uma parcela significativa da população, ciente do perigo, mas alheia a ele, se acostumou com o vírus e suas consequências, aceitando passivamente seus males como parte do novo cotidiano. As mortes causadas viraram fato comum aceitável, desde que tenha sido com o vizinho, nunca com alguém do nosso convívio familiar ou social, e, ao final, os impedimentos sociais recompensados com um auxílio financeiro minguado do Governo Federal, provocando enormes aglomerações em filas de bancos, tem levado muitos ao comodismo assistencialista, tão comum num país de pobreza estrutural como o Brasil.

   Assim, uma pandemia com as dimensões como a que por hora ainda nos afeta, virou acontecimento que passou a ser ignorado e a maioria das pessoas, por conta própria, começou a voltar a antiga normalidade como se tudo estivesse resolvido. Bares e festas lotadas, restaurantes, supermercados, feiras livres, estabelecimentos comerciais, escritórios, consultórios, tudo já volta à normalidade disfarçadamente; justifica-se a quebra dos protocolos em nome da economia que não pode parar… qualquer assunto que fale em retomar medidas mais rígidas de isolamento social, logo é rechaçado com uma desculpa qualquer que garanta a manutenção dos interesses pessoais e privados do conjunto da sociedade, mas nenhuma preocupação com o perigo do vírus ao lado. Resultado: o número de casos só aumenta e o caos continua.

   Agora, fala-se numa vacina que pretende imunizar a população, mas sem data marcada para tal. Enquanto isso, estados como o Rio Grande do Norte e municípios como Caicó que vinham dando bons exemplos de combate a pandemia com um isolamento social minimamente organizado, de repente, deu-se uma inversão e passamos a alimentar as estatísticas do aumento dos casos, mortes e desorganização quanto ao estabelecimento e cumprimento de decretos.

   Pelo que me parece, quando o assunto é exatamente as pessoas se protegerem, para proteger seu próximo e sobreviver ao vírus e seus males, observo que muitos preferem ignorar o problema e tocar a vida em frente sob conta e risco do perigo letal. É como se tudo fosse uma ilusão em um mundo virtual de fake news.

   Ou como bem disse Freud: “(…) as massas nunca tiveram sede de verdade, elas querem ilusões e não vivem sem elas…”.

FONTE: Professor Antônio Neves

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