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Artigo: Legado da Lição

Conversando com alguns amigos, lancei uma indagação: qual foi a maior obra de Moisés? Libertar os hebreus da escravidão no Egito ou escrever um livro?

A maioria respondeu, sem hesitar, que a libertação do povo hebreu foi seu maior feito. Apresentei, porém, outra perspectiva. Argumentei que a libertação foi um acontecimento decisivo para um povo; já o livro atribuído a Moisés — a Bíblia — atravessou milênios, moldou civilizações, inspirou leis, formou consciências e preservou a memória da humanidade. A libertação tornou-se apenas um dos capítulos dessa grande narrativa. Foi o livro que assegurou que essa história jamais se perdesse no tempo. Assim, a palavra escrita perpetuou e difundiu a própria ideia de liberdade. O livro venceu.

Essa tradição do livro, da escrita e do ensino também alcançou o Seridó. Nossa região construiu uma identidade profundamente marcada pelo apreço ao conhecimento, à leitura, à literatura e, sobretudo, à escola. Sob essa influência, a cultura seridoense sempre reconheceu na mulher a figura da educadora, da orientadora e da guardiã dos primeiros ensinamentos.

Estudei nos grupos escolares do Seridó e guardo uma lembrança que jamais me abandonou: nas escolas do sertão havia, quase exclusivamente, professoras. Dessas mulheres recebi muito mais do que lições formais. Recebi exemplos de dedicação, disciplina, sensibilidade, humanidade e compromisso com a cultura.

Foi inspirado por esse legado que escrevi uma biografia romanceada de Dona Iracema, uma das maiores educadoras do Seridó. A obra nasceu como uma homenagem à sua trajetória e, ao mesmo tempo, como um tributo a todas as professoras da região — mulheres que transformaram a sala de aula em um espaço de emancipação, cidadania e esperança.

O livro recebeu o título Legado da Lição, expressão que sintetiza a herança deixada por quem fez do ensino uma missão de vida. Seu lançamento acontecerá durante a tradicional Festa de Sant’Ana, quando a cultura, a fé, a memória e os reencontros do povo seridoense se unem para celebrar aqueles que ajudaram a construir a identidade da nossa terra.

O Seridó não possui cartões-postais artificiais. Seu patrimônio é mais profundo: o alvorecer sobre as pedras, o crepúsculo que colore o sertão de sentimentos e os declamadores de estrelas. É nessa paisagem, feita de refúgios, memória, educação e poesia, que também floresce o legado das mestras que ensinaram gerações e ajudaram a escrever a história da nossa gente.

Janduhi Medeiros

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