Artigo: A luta de Lula para continuar vivo

Por: Professor Antônio Neves
Historiador e militante sindical

É preciso reconhecer que Lula não está politicamente morto, muito menos derrotado; contudo, precisamos aprofundar algumas reflexões: O caminho para os novos desafios do Brasil continua sendo mesmo Lula? Qual contribuição o PT poderá dá nesse cenário, para além da bolha do lulismo? O que fazer para superar a tática do exercito de um homem só?

Considerado a maior liderança popular das esquerdas em atividade no Brasil, o ex-presidente Lula que até pouco tempo se encontrava preso no cárcere da Polícia Federal de Curitiba, vítima de uma série de processos e acusações duvidosas sobre sua conduta de quando ocupante do cargo de Presidente da República, busca sobreviver à condenação pela qual precisa provar sua inocência e, ainda, convencer o país e ao mundo que é vítima de perseguição política, orquestrada pelo consócio golpista que se instalou nas entranhas do poder da nação sob a toga do juiz Sérgio Moro, agora, Ministro da Justiça.

Mas isso não é tudo e por si só, não faz com que Lula seja unanimidade entre as massas que, por uma década experimentaram as benesses do estado desenvolvimentista por ele instalado quando presidente. Hoje, Lula é visto com desconfiança por parte da população, continua sendo atacado, principalmente pela classe média alta, apoiadora da ação de desmonte da nação, agora em vigor pelas diretrizes da extrema direita fascista, liderada pelo presidente Bolsonaro.

Depois de uma temporada preso, vítima de jogadas jurídicas explicitamente duvidosas e cheias de vícios premeditados e já comprovados, por intermédio das denúncias do site The Intercept Brasil, que revelou as trapaças da “República de Curitiba” (leia-se do procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sérgio Moro) para incriminá-lo, Lula conseguiu retomar a liberdade, na tentativa de se reintroduzir na pauta política do momento e se reerguer diante aos que buscaram destruí-lo.

Contestar a liderança e mobilização de Lula é fazer coro aos que acham que o ex-presidente está acabado; Lula é um sobrevivente da sua própria história, um combatente dos ataques que lhe afeta da forma mais violenta, negando-lhe o direito a um julgamento justo, numa tentativa de aniquilá-lo de vez por todas das disputas políticas e do seu retorno ao cenário eleitoral. Ainda considerado a maior liderança política e eleitoral capaz de recuperar o espaço perdido do PT e do campo popular das esquerdas que governaram o Brasil entre 2002 a 2016, espera-se que Lula faça os movimentos necessários para unificar o campo popular em torno da superação da ameaça de dissolução da nação em andamento.

Para isso, muito mais que dialogar com quem pensa diferente, é preciso também rever as táticas de lutas, superar a arrogância hegemonista do seu próprio partido, o PT, apresentar uma nova proposta convincente a sociedade na perspectiva de construir uma frente ampla que agregue todas as forças que se disponham a lutar contra o atual e degenerado quadro político pós-golpe que o país enfrenta.

Reverter o culto a personalidade lulista, agora, mais do que nunca, alimentado pela campanha antilula que se instaurou contra o ex-presidente, desde que começou a Operação Lava Jato, requer perceber as armadilhas que se impõem não só sobre o próprio, mas também sobre as demais e influentes lideranças das esquerdas do país. O status de salvador da pátria que o PT utiliza para impor sua política de aliança unilateral, não unifica, nem amplia (o movimento sindical que o diga), e ao final, corrobora apenas para o isolamento que se choca com as escolhas conjunturais.

Ao sair da prisão, motivado pela euforia das manifestações populares que se seguiu à sua libertação, Lula retornou mais forte do que quando entrou, porém, ainda não conseguiu capitalizar esta condição para liderar uma agenda de lutas sustentada numa proposta de ação pela unidade das esquerdas com o campo político-popular e social, como tem proposto o PCdoB, a UNE, a CTB, governadores e parlamentares. Nos seus primeiros discursos e entrevistas, pós-libertação, Lula preferiu continuar confrontando (de forma revanchista) o agora ministro Sérgio Moro (a quem responsabiliza pela manipulação jurídica de suas condenações), a imprensa (Globo) e o presidente Bolsonaro (o fascista), com um discurso ofensivo, frontal e caricatural. Personalista e centralizador, ele não propôs nada de novo fora do arco da sua militância.

Parece que a estratégia é esperar por 2022, e esse pode ser o pior dos erros!

Até aqui, falta a Lula aguçar o olhar para além da idolatria pessoal da sua imagem e para além dos interesses político-partidários exclusivistas do PT, que se impõe diante dos aliados com a velha condicionante de ser o maior partido do Brasil (mas na mesma proporção tem hoje, seu mesmo tamanho em rejeição). Negar a importância de Lula e do PT para a construção de um projeto de nação inclusivo, soberano, democrático e popular seria a mesma coisa que negar a gravidade do que representa o momento político-governamental que o país vive com Bolsonaro a frente dos destinos da nação, mas para isso, Lula e o PT precisam romper a bolha.

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