Artigo: Por que somos tão resistentes em aceitar a verdade?

Por Antônio Neves

Professor e historiador

A passagem do coronavírus pela terra será a linha divisória da vida existencial da humanidade no século XXI. Suas consequências demarcarão o fim de uma era e início de outra, porém, sem ousar aqui fazer previsões, tempos nada confortáveis estão por vir. Se antes a fome, as guerras, a violência e a desigualdade já reinavam entre os escombros de um mundo que caminha para seu apogeu de miserabilidade, agora, com mais uma peste secular, é difícil prever o que sobrará diante o caos que se levanta.

Uma questão que se impõe no cenário atual é o fato de que a peste coronavírus surge associada a um elenco de atitudes comportamentais que fazem do ser humano atual uma peça contraditória para preservar a própria espécie. Se antes já não éramos tão racionais ao ponto de matar e destruir nossos semelhantes e a natureza que nos sustenta, agora destruímos a nós mesmo, voluntariamente, por via da insensatez.

O fim do mundo, tantas vezes anunciado e profetizado, perdeu seu potencial apocalíptico, nos acostumamos de tal maneira com nossa alta destruição que adotamos um olhar passivo diante da morte prematura e seus perigos imediatos – o coronavírus está aí para comprovar o que digo. O fim já não nos impõe mais medo, apenas uma leve preocupação!

Diante do fato real de nos protegermos da morte que transita como um vírus neste momento crucial para a vida humana resta apenas o isolamento social como solução, mas argumentos e recomendações governamentais sobre a incidência dos casos de infectados e óbitos não têm sido suficientes para a adoção de uma consciência lúcida para nos obrigar a parar diante o perigo que nos desafia.

Não é difícil de perceber que o ser humano trocou a razão pela ignorância cega, o pensamento lógico pela dúvida vã, a prevenção pelo lucro; a crença pela alienação. Deixou de ser pessoa para virar números e estatísticas, sente-se desobrigado a acreditar na realidade para projetar uma ficção baseada na minimização dos acontecimentos que fragilizam a vida. Para muitos, o coronavírus é uma invenção de forças ocultas, de países ideológicos, castigo de Deus, e nunca uma doença que pode nos acometer de fato…

Por que somos tão resistentes em aceitar a verdade?

Pelo país inteiro pessoas resistem em cumprir o isolamento social com justificativas pouco convincentes. Comerciantes e empresários ignoram decretos governamentais imaginando que é possível se livrar da peste acumulando capital, para muitos, não é a vida que deve ser protegida, mas o lucro acima de tudo e, antes de olharem para si mesmos como pessoas susceptíveis à doença, olham apenas para a conta bancária que precisa ser preservada. Pessoas comuns circulam por ruas e avenidas, muitas vezes sem nenhuma necessidade ou proteção, sem se darem conta que não estão imunes a esse vírus invisível e mortal. Diante do fato, a maioria prefere relativizar o problema, achando que – “não acontecerá comigo” – […]

Se nos séculos passados quando outras pestes aterrorizaram o mundo e tantas vidas ceifaram por falta de maiores cuidados e conhecimento sobre como enfrentar aquele mal, agora tudo é bem diferente. Em plena era tecnológica e da informação do século XXI, querer negar o problema ou fazer de conta que tal vírus não existe, já não é mais por falta de opção ou escolha, de avisos ou recomendações científicas, médicas e governamentais… Muitos, ricos e pobres, preferem ouvir a voz de si mesmo, onde nem sempre é a lucidez que prevalece. E o vírus continua a nos desafiar!

   Quem vencerá?

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