Assessor de Braga Netto diz, no WhatsApp, que Bolsonaro tramou golpe e “tirou o corpo fora”

Assessor do general Walter Braga Netto, o coronel da reserva do Exército Flávio Peregrino mantinha em seu WhatsApp uma série de anotações – em conversas consigo mesmo – que mostra os bastidores da tentativa de golpe e descreve, em letras garrafais, que Jair Bolsonaro (PL) esteve à frente da intentona pois “SEMPRE foi a INTENÇÃO dele” se manter no governo.

“A posição de muitos envolvidos (indiciados) é que buscaram sempre soluções jurídicas e constitucionais (Estado de Defesa e de Sítio, GLO e artigo 142). Tudo isso para achar uma solução e ajudar o Pres B [NR.: presidente Bolsonaro] a se manter no governo (pois SEMPRE foi a INTENÇÃO dele), em função de suspeitas de parcialidade no processo eleitoral e desconfiança nas urnas eletrônicas”, diz Pelegrino em um documento inédito divulgado pelo jornalista Aguirre Talento nesta segunda-feira (11) no Estadão.

O documento, datado de 28 de novembro de 2024, tem como título “ideias gerais da defesa” e foi obtido pela PF no celular de Pelegrino durante a busca e apreensão da PF na operação contra a facção que articulou o plano Punhal Verde e Amarelo, que tinha como objetivo assassinar Lula, Geraldo Alckmin (PSB) e Alexandre de Moraes.

No texto, o coronel critica a estratégia de defesa do ex-presidente, que tentou responsabilizar militares e outros indiciados – como o ex-assessor Filipe Martins – pelo golpe.

“A Defesa do B (em especial a comunicação dele) está usando agora áudios que foram divulgados da Operação Contragolpe e o Relatório Final para reforçar a tese de que apesar de todo mundo querer fazer alguma coisa, foi o B que não quis. Tirando o corpo dele fora, mesmo que para isso jogue no colo do Heleno, Braga Netto, Paulo Sérgio, Garnier, Cid, Câmara, Filipe Martins e até do Padre”, diz o coronel.

“Oportunismo e o que mostra que tudo será feito para livrar a cabeça do B [Bolsonaro]. Estão colocando o projeto político dele acima das amizades e da lealdade que um Gen H [Heleno] sempre demonstrou ao B [Bolsonaro]”, escreveu ainda.

Peregrino diz ter ouvido os indiciados, os advogados e recebendo “inputs de militares da ativa e da reserva que estavam diretamente envolvidos ou não nos episódios de novembro e dezembro de 2022” que “já capturaram essa estratégia de defesa de B”, em crítica aos advogados do ex-presidente e revelando a insatisfação da ala militar do golpe.

“Deixar colocarem a culpa nos militares que circundavam o poder no Planalto é uma falta total de gratidão do B [Bolsonaro] àqueles poucos, civis e militares, que não traíram ou abandonaram o Pres. B [Bolsonaro] após os resultados do 2º turno das eleições”, diz.

O militar afirma ainda no documento que “após o resultado do 2º turno das eleições, muitos não se conformaram com a derrota e iniciou-se uma busca para ‘achar’ fraude nas urnas, o que nenhuma auditoria provou”. em seguida, diz que os “militares erraram”.

“Os militares erraram todos em suas condutas, os da ativa e do alto comando e os da reserva que eram do governo por não terem tido a coragem de demover a ideia de realizar alguma solução constitucional pois na verdade o B [Bolsonaro] ficou isolado politicamente, internacionalmente e aqueles que ficaram com ele até o fim, ele aparenta estar soltando a mão agora pela sobrevivência de seu projeto político e de poder”.

Em mensagens enviadas a si mesmo em 12 de dezembro de 2024, o coronel faz críticas à estratégia “kamikaze” da defesa de Bolsonaro que, segundo ele, estaria forçando uma ordem de prisão para sustentar a tese de que é perseguido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

“Alguns dos indiciados, advogados e outras pessoas arroladas no inquérito do golpe e ex-integrantes do governo Bolsonaro têm identificado que a estratégia da defesa do ex-presidente tem sido muito volúvel, com mudanças bruscas de posicionamentos, conforme o anúncio de novos dados do inquérito. Esta conduta denota, para esses interlocutores, desorientação, falta de coerência e, em última instância, desespero e necessidade excessiva de se manter na mídia”, diz a mensagem.

“Da negação inicial, com alegação de desconhecimento de tudo por estar doente, passando por assumir que conversou soluções constitucionais, agora citando exílio em embaixada, ‘traição’ dos militares que eram mais leais e próximos durante o governo”, segue.

Revista Fórum*

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