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Auditoria na Anorc aponta suposto desvio em torno de R$ 400 mil. Tesoureiro nega e recorre

“Me parece que a Anorc está passando por momentos muito difíceis. Problemas de ordem administrativa. Houve um problema muito grave por lá. Com tesoureiro, com presidente, um negócio muito chato de ser falado. Muito grave, gravíssimo. Para mim, aquilo é caso de polícia. Desvio… Desvio de dinheiro. É caso de polícia. Eu, se ainda estivesse na Anorc, eu chamaria a polícia. Entregaria aquilo à polícia, que é crime. O que fizeram lá na Anorc é um crime”.

A declaração é de um dos ex-presidentes da Associação Norte-rio-grandense de Criadores (Anorc), o ex-senador José Bezerra Júnior, mais conhecido como “Ximbica”. Foi dada no dia 13 de junho, quando ele concedeu entrevista ao programa Agro Sertão, transmitido no Youtube pela Sidys TV. O programa, apresentado por Adeilton Silva, tinha a intenção de homenagear o pecuarista. E foi com a declaração acima que o ex-senador acabou trazendo a público algo que até então se restringia aos limites que compõem o território imaterial da Associação, cujos domínios se estendem desde o Parque Aristófanes Fernandes, onde fica sua sede; até os confins do Rio Grande do Norte profundo que há dentro dos amplos latifúndios mentais de seus sócios.

A história de que a entidade poderia estar passando por algum problema foi notícia em janeiro, no NOVO Notícias. Em primeira mão, uma reportagem mostrou que a entidade havia aberto uma auditoria para checar suas contas. O motivo? Suspeitas de que poderia haver algum desvio. Na época, o então presidente, Felipe Matheus Cavalcanti França, e o 1º tesoureiro, Yolando Cocentino Neto, se afastaram dos cargos para que os trabalhos pudessem ocorrer de maneira mais transparente.

Na época, a ideia era que tão logo a auditoria fosse concluída, os dois reassumiriam os cargos. Passados seis meses, nada é como aparentava que seria. De acordo com o presidente do Conselho Deliberativo da Anorc, o advogado Leonardo Dias de Almeida, o presidente afastado apresentou carta de renúncia e deverá quitar um débito. Não é um valor alto. Segundo ele, a diretoria entendeu que, da parte de Matheus França, “não houve desvio doloso”.

Já com relação ao 1º tesoureiro, a recomendação atual do Conselho é pelo desligamento. A razão é que o relatório da auditoria apontou uma apuração inicial de possível desvio em torno de R$ 400 mil. No entanto, o próprio Conselho ressalta que isso não significa que o ex-tesoureiro teria desviado todo esse valor, que ainda passa por revisão. Yolando Cocentino Neto nega as acusações e apresentou um recurso formal. “Absurdo sob todos os aspectos”, afirmou.

A previsão é que tudo seja concluído até o fim deste mês. Ao final desse processo, pode ser que se mantenha a decisão pela expulsão e o valor a restituir, que ainda está sendo calculado. Pode ser também que nada aconteça e que tudo se resolva. Isso dependerá da avaliação que está sendo feita da documentação apresentada por Yolando Cocentino Neto e que é composta por cerca de 200 páginas.

Leonardo Dias informou que todo esse processo começou após um dos conselheiros fazer alerta sobre a possibilidade de desvio. A partir daí foi montada uma comissão e uma auditoria que, segundo o relatório inicial, apontou indícios de desvios. Ao final do processo de auditoria, “o Conselho entendeu que não houve desvio doloso por parte de Matheus”, disse.

“O Conselho analisou as defesas de todo mundo e entendeu que Matheus não praticou nenhum ato doloso que importasse desvio de recurso por parte da Anorc. Antes do julgamento, antes dessa decisão, antes da reunião colegiada, Matheus apresentou renúncia à presidência da Anorc de livre espontânea vontade”, contou.

Segundo o presidente do Conselho, a única coisa que foi colocada com relação ao ex-presidente é que ele teria que devolver um valor referente a um smartphone que foi vendido à Associação e pouco tempo depois apresentou defeito. Somente.

“Com relação ao tesoureiro, o colegiado entendeu que houve má-fé na gestão de alguns recursos E entendeu que ele deveria ser desligado da Associação e obviamente perder o cargo de tesoureiro. 
Deliberou também que ele teria um valor a ser devolvido. A restituir”, explicou Leonardo Dias.

Esse valor específico, ainda não está fechado. Por quê? “Porque a auditoria apurou um valor e depois que ele apresentou defesa entendeu-se que, de repente, em alguns pontos, ele poderia estar correto naquilo que ele disse que não foi desvio”, esclareceu Leonardo Dias.

De acordo com o presidente do Conselho, agora está sendo feita essa apuração para verificar os valores novamente, por meio da comparação “entre aquilo que ele apresentou e aquilo que a auditoria inicialmente entendeu que era a irregularidade”.

De qualquer forma, de acordo com o presidente do Conselho, a auditoria encontrou um furo nas contas. “Isso aí não tem o que dizer não. Isso daí está certo. A nossa conclusão é essa. A defesa de Yolando diz que não, que não houve e apresenta argumentos nesse sentido”, observou.

Leonardo Dias explicou que, segundo a auditoria, os desvios foram resultado de gastos de toda ordem. “Tem os mais diversos motivos e destinos: prestadores de serviços que foram pagos pela Anorc, mas não prestaram serviço na Anorc. Bens que foram comprados em lojas em nome da Anorc, mas que não chegaram”, exemplificou.

Agora, após a avaliação da defesa de Yolando, o caso será novamente levado ao Conselho. A previsão de Leonardo Dias é que isso ocorra até o final de julho. “É algo que a gente tem que olhar com muito cuidado e com muito respeito, porque, afinal de contas, se ele está dizendo que não fez, a gente tem que olhar com bons olhos até enxergar e dizer: ‘você fez ou você não fez’”, comenta.

Ele explicou ainda que após a avaliação final é que será decidido o que será feito. “Isso vai ser deliberado nessa decisão do Conselho ao analisar o recurso dele. Tem algumas particularidades: hoje em dia o próprio direito penal ele prevê soluções extrajudiciais ou seja para evitar a judicialização de casos. Então, inclusive, pode ser pauta de discussão… ‘Olha, você devolve tudo que você desviou e isso aqui tá quase encerrado já que se trata de recurso interno’. Ou então o Conselho pode dizer: ‘Não. Mesmo devolvendo isso tudo aqui vai ser encaminhado para polícia para apurar eventuais crimes que você tenha cometido’. Eu não posso antecipar uma eventual decisão do Conselho, mas nós temos esses caminhos a seguir. Eu não sei qual é a disposição que Yolando vai ter também de devolver o dinheiro no caso de uma manutenção dessa decisão de que ele tem que devolver”, detalhou Leonardo Dias.

E que lição fica de todo esse episódio? Para o presidente do Conselho, a avaliação é que a Anorc precisa melhorar “cada vez mais seus processos de governança de pagamento, de análise de despesas e que crie regras específicas objetivas e de compliance para evitar no futuro novos casos como esse”.

Matheus França foi procurado para falar sobre o caso, mas não respondeu à mensagem enviada. O espaço permanece aberto para qualquer manifestação.

A Anorc seguirá presidida pelo presidente em exercício, Orlando Procópio, até dezembro, quando nova eleição deverá acontecer. Daqui até lá, a ANorc realizará mais uma vez a Festa do Boi. “Eu vou terminar esse mandato e a gente já está trabalhando para fazer uma grande Festa do Boi, independente de qualquer coisa. Porque eu acho que Anorc e a Festa do Boi são muito maiores do que o que aconteceu ou o que venha a acontecer”, afirmou o atual presidente.

“Não houve dolo, má-fé ou desvio de recursos”, afirma Yolando Neto

Por whatsapp, o NOVO entrou em contato com o Yolando Neto. Ele mandou a seguinte mensagem:

“Estou exercendo meu direito de defesa e apresentando manifestação contra o relatório, porque entendo que ele contém conclusões equivocadas, sem a análise completa dos documentos, sem minha oitiva prévia e sem considerar o contexto real da administração da Anorc. Apresentei documentos, comprovantes, esclarecimentos e pedidos de reanálise, todos pelos meios formais. Por cautela, prefiro não tratar de detalhes por mensagem antes da conclusão do processo interno, mas deixando claro que não houve dolo, má-fé ou desvio de recursos, e que muitos pontos apontados dizem respeito a despesas realizadas sempre com anuência, conhecimento e autorização da presidência, responsável estatutária pela liberação das despesas, em benefício da própria entidade e dentro da rotina praticada pela Anorc. Fico à disposição para, no momento adequado, prestar outros esclarecimentos, caso necessário.”

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