Em um dia tranquilo de domingo, dona Débora Bezerra lavava roupas em um tanque no sítio onde mora com a família. Com as mãos ocupadas, pediu ao seu neto de doze anos que colocasse um pouco mais de lenha no fogão para preparar o jantar. O que veio depois foi uma pequena explosão e um grito forte de dor. O resultado foi uma queimadura de segundo grau. Em Natal, o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel conta com o único Centro de Tratamento de Queimaduras do estado, e neste inicio de ano, 53 ocorrências do tipo já foram registradas, com 26 atendimentos precisando de internação. No ano de 2021, foram 417 atendimentos de queimadura térmica, um crescimento de 38% em relação a 2020 (302).
Desse número total, 223 atendimentos precisaram de internação no ano passado. Em 2020, esse número correspondeu a 179 internações. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) apontou que, entre março e novembro de 2020, foram registradas cerca de 700 internações em decorrência de queimaduras causadas em incêndios por álcool no Brasil. Em entrevista à Tribuna do Norte, o cirurgião plástico Marcos Almeida, coordenador do CTQ, confirmou que o Rio Grande do Norte contribuiu com os dados divulgados.
“Durante alguns meses no primeiro ano da pandemia, tivemos um disparo no número de queimaduras em acidentes causados pelo uso de álcool. Primeiramente, as pessoas começaram a achar que o álcool era a solução de tudo, que era só passar álcool que matava o vírus. Outro ponto foi a liberação por parte da Anvisa da comercialização do álcool 70%, o que foi um problema do ponto de vista de queimaduras”.
O médico explica que essa medida provocou uma grande preocupação para a Sociedade Brasileira de Queimaduras porque o álcool 70% não tinha circulação livre da forma que é feita atualmente. A partir desse momento, as pessoas começaram a estocar o álcool, usando para uma série de circunstâncias, inclusive para cozinhar alimentos. O uso do álcool em gel também apresenta outra complicação: sua chama é invisível.


