Conheça o comprimido que dobrou a sobrevida de pacientes que lutam contra o câncer de pâncreas

Durante décadas, a proteína RAS foi considerada um dos maiores desafios da oncologia. Presente em todas as células humanas, ela atua como um interruptor biológico responsável por regular o crescimento celular. No câncer de pâncreas, porém, mutações fazem com que essa proteína permaneça permanentemente ativada, estimulando de forma contínua a multiplicação das células tumorais.

Agora, um estudo clínico internacional apresentado pela empresa americana Revolution Medicines indica que um medicamento experimental conseguiu, pela primeira vez, atingir esse alvo de maneira eficaz em pacientes com câncer pancreático avançado.

Batizada de daraxonrasib, a droga foi testada no ensaio clínico de Fase 3 chamado RASolute 302, conduzido em pacientes com doença metastática que já haviam passado por quimioterapia sem sucesso. Os resultados apontaram aumento expressivo na sobrevida em comparação ao tratamento convencional.

Segundo os dados divulgados, pacientes que receberam o comprimido oral tiveram sobrevida mediana de 13,2 meses, enquanto aqueles tratados com quimioterapia intravenosa viveram, em média, 6,7 meses. O estudo também registrou redução de 60% no risco de morte entre os pacientes tratados com o novo medicamento.

“Um comprimido dobrou a sobrevida desses pacientes”, afirmou Stephen Stefani, oncologista da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation. Para ele, o resultado representa um marco em uma doença historicamente associada a baixíssimas taxas de resposta terapêutica.

O câncer de pâncreas é considerado um dos tumores mais agressivos da oncologia. Em cerca de 80% dos casos, o diagnóstico ocorre em estágio avançado ou metastático. Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem o diagnóstico anualmente, enquanto 50 mil morrem pela doença. No Brasil, são cerca de 13 mil novos casos por ano, com aproximadamente 12 mil mortes.

Na forma metastática, a taxa de sobrevida em cinco anos gira em torno de 3%.

O diferencial do daraxonrasib está no mecanismo de ação. Tentativas anteriores de bloquear a proteína RAS conseguiam atingir apenas variantes específicas, como a mutação G12C, menos frequente nos tumores pancreáticos. O novo medicamento é classificado como um inibidor pan-RAS, capaz de atuar simultaneamente sobre diferentes variantes da proteína, incluindo G12D, G12V e G12R —as mais comuns nesse tipo de câncer.

“Em vez de tentar identificar a peça com defeito, ele age sobre o acelerador inteiro e o destrava”, explicou Stefani.

O oncologista Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, destacou que os resultados ganharam ainda mais relevância pelo perfil dos pacientes incluídos no estudo.

“Não eram pacientes na primeira linha de tratamento. Eram pacientes metastáticos, com doença avançada, que já haviam feito quimioterapia”, afirmou. Segundo ele, obter resultados superiores aos observados em terapias iniciais foi considerado surpreendente.

Cerca de um terço dos participantes apresentou redução do tumor, enquanto aproximadamente 80% tiveram estabilização da doença ou resposta clínica ao tratamento.

Além do potencial terapêutico, especialistas destacam a praticidade do medicamento, administrado por via oral. Diferentemente da quimioterapia intravenosa, o paciente pode realizar o tratamento em casa. Os efeitos colaterais mais frequentes relatados foram náusea, fadiga, reações cutâneas e mucosite, considerados manejáveis pelos pesquisadores.

Nos Estados Unidos, o medicamento ainda aguarda aprovação definitiva da Food and Drug Administration (FDA), mas já recebeu o status de Breakthrough Therapy, concedido a terapias consideradas promissoras frente aos tratamentos existentes. A droga também foi classificada como medicamento órfão e incluída no programa National Priority Voucher, que acelera a análise regulatória de medicamentos considerados prioritários.

Antes mesmo da autorização formal, o FDA liberou o uso compassional do medicamento em pacientes sem alternativas terapêuticas disponíveis. Os resultados completos do estudo devem ser apresentados em junho, durante o congresso anual da American Society of Clinical Oncology.

No Brasil, o caminho regulatório ainda depende da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Depois disso, seria necessária avaliação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para inclusão obrigatória da cobertura pelos planos de saúde.

O custo também surge como obstáculo para eventual incorporação no sistema público. Segundo Stefani, drogas oncológicas inovadoras no mercado americano custam, em média, cerca de US$ 10 mil mensais —aproximadamente R$ 50 mil.

Apesar do entusiasmo em torno dos resultados, os especialistas fazem uma ressalva importante: o daraxonrasib não representa uma cura para o câncer de pâncreas. O estudo avaliou apenas pacientes metastáticos em segunda linha de tratamento, e ainda não há respostas sobre o desempenho da droga em estágios mais precoces da doença ou como terapia inicial.

Com informações do g1

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