Mais de 20,8 milhões de argentinos têm algum tipo de dívida, número equivalente a cerca de 95% da população economicamente ativa, segundo a Radio France Internationale (RFI). O cenário foi acompanhado por protestos contra bancos e carteiras virtuais, iniciados no mês passado. O quadro ocorre em meio à perda de poder de compra das famílias e a custos elevados para quem recorre ao crédito. Em algumas operações do Mercado Pago, o Custo Financeiro Total Efetivo Anual (CFTEA) chega a 1.375,94%.
Desse grupo, cerca de 6 milhões estão em situação de mora. No crédito a pessoas físicas, 26,1% dos devedores registravam algum grau de atraso em junho de 2026. No mesmo período, os créditos em situação irregular representavam 17,5% do total.
Segundo a reportagem da RFI, parte dos empréstimos é usada pelas famílias para despesas básicas, como alimentação e contas de água, luz e gás. Com a renda pressionada e o custo de vida elevado, até dívidas de valores relativamente baixos podem se tornar difíceis de quitar.
Custo do crédito chega a 1.375%
Segundo a RFI, as taxas citadas para operações bancárias variam de 55% a 172% ao ano. Nas carteiras digitais, chegam a 260%. Em algumas operações, porém, o Custo Financeiro Total Efetivo Anual (CFTEA), que considera juros, encargos e impostos, pode chegar a 1.375,94%.
O Mercado Pago está entre as empresas citadas nos protestos e também foi alvo de uma denúncia penal. O dirigente político Gabriel Solano apresentou uma denúncia por suposta usura relacionada às taxas cobradas pela plataforma.
A apresentação, porém, não significa que a empresa ou seus responsáveis tenham sido considerados culpados pela Justiça. O caso ainda depende da apuração judicial.
Ao comentar o problema, o presidente Javier Milei afirmou que o endividamento pertence à esfera privada e que os devedores não foram obrigados a contratar os créditos, segundo a RFI.
Salário acaba antes do fim do mês
Pesquisa da consultoria Zentrix mostra que 61% dos argentinos dizem que seus rendimentos chegam, no máximo, até o dia 20. Outros 24,3% afirmam conseguir chegar ao fim do mês, mas sem conseguir poupar.
O levantamento aponta ainda que 86,1% dos entrevistados consideram que seus salários não acompanham a inflação. Os números mostram a pressão sobre o orçamento das famílias em um momento de aumento da inadimplência e de maior dificuldade para manter as despesas do mês.


