Não tenho a menor dúvida: os grandes artistas cujas obras cantam a alma, os valores e a identidade do povo brasileiro têm, em sua imensa maioria, raízes fincadas no Nordeste. Assim foi no passado e continua sendo no presente.
É impossível falar dessa grandeza sem mencionar Luiz Gonzaga, o maior de todos. O Rei do Baião não apenas fez música; ele deu voz ao sertão, transformou a dor em poesia, a seca em canto e a esperança em melodia. Não citarei todos os grandes nomes porque precisaria de muitas páginas para enumerá-los. O Nordeste é um celeiro inesgotável de gênios.
Entre os artistas vivos, porém, no meu entendimento, ninguém representa essa tradição com tanta grandeza quanto Alceu Valença.
Alceu construiu uma obra musical monumental, marcada pela originalidade, pela força poética e pela riqueza rítmica. Mas há nele um gesto que desperta ainda mais respeito: a reverência permanente às suas origens. Em seus espetáculos, dedica boa parte do repertório às canções de Luiz Gonzaga e de outros mestres da música nordestina. Faz isso sem descaracterizar os ritmos, sem abandonar a cultura popular e sem ceder às modas passageiras.
Alceu canta as feiras livres, os repentistas, os poetas populares, os brincantes de rua, os personagens tidos como “doidos”, os vendedores de sonhos e encantamentos, o sertão, o agreste e a memória viva do povo nordestino. Sua música não é apenas entretenimento; é um ato de preservação cultural e de profundo amor pela terra de onde veio.
Há, ainda, um detalhe que me emociona profundamente. Mesmo sendo um artista consagrado no Brasil e no exterior, Alceu Valença afirma que um dos seus grandes sonhos é voltar a Caicó para realizar um grande espetáculo. Isso revela a grandeza de quem nunca esqueceu suas raízes e compreende que o verdadeiro artista pertence, antes de tudo, ao seu povo.
Alceu Valença é um artista extraordinário, um patrimônio da cultura brasileira. Como se diz no Nordeste, é um “cabra da molesta”: expressão que traduz coragem, talento, autenticidade e grandeza.
Parabéns, Alceu! Que sua voz continue ecoando pelos palcos do mundo sem jamais deixar de ouvir o sentimento do sertão nordestino.
Janduhi Medeiros


