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Caicó: A lenda do vaqueiro e do Boi Brabo que originou a construção da igreja de Sant’Ana

Essa é a Lenda do vaqueiro Antônio do Mofumbo – Recontada por mim a Baronesa do Forte do Cuó*

Era uma tarde de abril . O sol do Seridó descia lento, tingindo o céu de brasa.
E lá no coração do que hoje chamamos Caicó, se estendia uma mata fechada de mofumbo.
Ah, o mofumbo… árvore de tronco torto e folha grande , que dá frutinho seco e sombra teimosa. Ao redor dela nascia o juazeiro de galho retorcido, o xique-xique espinhento guardando água no peito, o mandacaru erguido como vela no deserto, e a Rosa Cera pingando leite branco.

Por essa mata andava Antônio do Mofumbo.
Vaqueiro de chapéu surrado, botas gastas e fé maior que o mundo.
Ele procurava um bezerro fujão. Um touro bravo foi quem surgiu no meio da Caatinga , de pelo escuro e chifre que parecia galho de aroeira.

Quando o vento parou, Antônio ouviu.
Primeiro foi o estalo do graveto. Depois o baque surdo no chão. Os preás assustados se esconderam debaixo de uma loca de pedra , umas seriemas saíram em revoada . Já a raposa e o tatu bola observaram a cena indiferentes ao perigo do alto de uma serrote , também devido a distância.
Das moitas saiu um touro. Mas não era touro comum, não, senhores ouvintes.
Os olhos eram brasa. O bafo era fumaça. Diziam os antigos que ali corria o espírito da terra, a lembrança dos primeiros donos desse chão.

O touro baixou a cabeça e veio pra cima.
Antônio correu. Correu entre o angico ,•catingueira * e a Jurema ; rasgando a camisa nos espinhos da jurema *, sentindo o cheiro forte da *alfazema brava esmagada sob os pés.
O coração batia como zabumba. A garganta seca. A morte vinha atrás.

Sem fôlego, caiu de joelhos num clareira. Pedra quente, terra vermelha.
E então ele ergueu os olhos pro céu e gritou:
“Ó minha Sant’Ana bendita! Mãe dos aflitos, padroeira dos vaqueiros! Se me livrar dessa desgraça, eu ergo uma capela pra senhora nesse sertão. E peço mais: que nunca falte água no poço desse rio, pra que o povo tenha vida!”

Fez-se um silêncio.
O vento voltou. As folhas do mofumbo balançaram.
E o touro… sumiu. Virou poeira e sombra entre os galhos.

Pausa

Antônio cumpriu a promessa.
Lá no alto, onde hoje está o Forte do Cuó, ele levantou pedra por pedra uma casinha pra Sant’Ana. Dali se via Caicó inteira, o rio Seridó cortando a terra, e o poço de Sant’Ana brilhando no leito como espelho.

E a promessa da água foi feita também.
“Que nunca seque, Santa. Que o povo beba, plante, crie e reze.”

Por isso, até hoje, quando o vaqueiro passa, ele tira o chapéu.
Por isso a fé do Seridó é tão funda quanto o poço.
Por isso Caicó nasceu de uma prece, de um mofumbo e de um vaqueiro chamado Antônio.

E você, ouvinte, que nasceu nos anos 50 e 60 , já bebeu água do Poço de Sant’Ana antes dela ser poluída?
Quem de vocês teve este privilégio?

Mas a lenda do poço de Santana é uma outra história que será contada aqui no Blog.

Professora :
Maria Socorro de Araújo
Contador de Histórias :
Poeta Cordelista Josman França

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